Renner Herrmann: da tinta do cavalinho branco ao whey protein
Nascida em 1927 por causa de um armário cuja tinta não secava, a Renner Herrmann pintou metade dos carros do Brasil, vendeu o negócio que a tornou famosa e hoje fatura R$ 5 bilhões com tintas industriais, revestimentos para madeira e whey protein.
Em 1927, uma pequena fábrica de tintas começou a funcionar em Porto Alegre com apenas cinco funcionários. Quase um século depois, a Renner Herrmann fatura R$ 5 bilhões, emprega 3 mil pessoas e vende para mais de 90 países, e o cavalinho branco que virou seu símbolo passou pela casa, pelo carro e pelo time de muita gente antes de chegar, hoje, até ao pote de whey protein.
A história começa em 1922, quando Arthur Koepke, um marinheiro do norte da Alemanha, desembarcou em Porto Alegre e arrumou emprego na tecelagem de A.J. Renner, industrial cujo grupo deu origem à Lojas Renner. Na tecelagem, o imigrante ficou amigo de Leopoldo Renner, irmão e sócio do patrão, e foi dessa amizade que a empresa nasceu.
Certo dia, Koepke chamou Leopoldo e Waldemar Renner para pintar um armário. A tinta nacional que usaram, castigada pela umidade do Guaíba, passou dias sem secar, e os três enxergaram ali um negócio: se a tinta disponível era tão ruim, havia espaço para alguém fazer uma melhor. Em 18 de junho de 1927, nos fundos da tecelagem, nasceu a Renner Koepke e Cia.

O sobrenome Herrmann entrou na história pouco depois, por meio de Olga, irmã de A.J., que estava viúva desde 1924 e passou a integrar a sociedade ao lado do irmão, no lugar de Waldemar. Em 1930, o tio colocou no comando da fábrica o filho dela, Ernesto Luiz Herrmann, que mal tinha saído da adolescência, e em 1933 Ernesto já fabricava até as latas em que a tinta era vendida.
Em 1957, a empresa adotou o cavalinho branco como símbolo, porque Renner, em alemão, remete a quem corre. A escolha também tinha um lado prático: na época, quem decidia a tinta usada numa obra era o pintor, e muitos pintores eram analfabetos, então bastava chegar à loja de ferragens e pedir a tinta do cavalinho.

Naquele mesmo ano, Ernesto morreu aos 49 anos, e o irmão dele, o engenheiro químico Hugo Herrmann Filho, assumiu o comando aos 36. Com Hugo à frente, começou um longo período de expansão, que incluiu a abertura de capital na bolsa de valores, novas fábricas na Bahia e no Rio Grande do Sul, as compras da Ideal e da Louçalin e as associações com a Sayerlack, em tintas para a indústria moveleira, e com a alemã Hoechst, em tintas automotivas.
Foi a compra da Ideal que abriu para a Renner a porta das montadoras. Em 1986, Thomas Bier Herrmann, já da terceira geração da família, conseguiu reunir numa mesma empresa a Renner e duas rivais, a americana DuPont e a Hoechst. Dois dias depois, o Plano Cruzado quase parou a fábrica, mas a operação se recuperou, e em 1989 a empresa pintava metade dos carros fabricados no Brasil.
Nos anos 1990, o nome Renner foi parar na camisa de dez clubes ao mesmo tempo, no Brasil, no Uruguai e no Paraguai. A sorte também ajudou, porque o patrocínio ao Grêmio coincidiu com a conquista da Libertadores de 1995, do Brasileirão de 1996 e da Copa do Brasil de 1997.

O susto veio em 1999. Com a maxidesvalorização do real, o dólar pulou de R$ 1,20 para R$ 2,16, e a dívida do grupo dobrou, já que a sociedade com a DuPont, responsável por 42% do faturamento, dependia de insumo importado. A saída encontrada foi encolher para crescer, e o Conselho decidiu reorganizar o grupo.
Em 2001, a Renner vendeu a participação na Renner DuPont e juntou as divisões de tintas decorativas e de tintas para a indústria moveleira, formando a Renner Sayerlack. Em 2002, fechou o capital na bolsa, e em 2007 vendeu o negócio de tintas decorativas, justamente aquele que tinha dado origem à empresa 80 anos antes.
Enquanto se desfazia desses negócios, o grupo acelerou a internacionalização. Abriu fábricas na Itália, nos Estados Unidos, no Chile e no Peru, montou centros de distribuição pela Europa e reforçou a operação brasileira com aquisições como a Flex Tintas em Pó e a Mekal, retomando a expansão em novas frentes.
A transformação foi além das tintas. Em 2011, a mesma família do cavalinho branco entrou no processamento de soro de leite, e em 2019 essa operação se uniu à paranaense Sooro, formando a joint venture Sooro Renner, que passou a produzir até whey protein.
Hoje, a Renner Herrmann continua sob o controle da mesma família, atua em três continentes e reúne negócios de tintas industriais, revestimentos para madeira e nutrição. Em 18 de junho de 2027, a empresa que nasceu de um armário mal pintado completa cem anos.