O que aconteceu com a PARMALAT?
Se você tem ou está próximo de completar 30 anos, provavelmente deve se lembrar dessa propaganda da Parmalat. E se no caso você torça para o Palmeiras, também é bem provável que você já tenha ouvido falar ou se recorda da famosa Era Parmalat, o período em que o time ganhou alguns dos seus títulos mais importantes.
Mas hoje em dia, pouco se escuta da empresa, o que nos leva a seguinte dúvida: O que aconteceu com a Parmalat? Como uma das maiores empresas de alimentos do mundo, com mais de 36 mil funcionários, foi à falência? O que causou a quebra da Parmalat?
Investigamos a fundo o que levou a empresa italiana à ruína, no que foi considerada uma das maiores fraudes contábeis da história e explicamos os bastidores por trás do rombo de 14 bilhões de euros que causou a falência da Parmalat e levou o seu fundador, o todo-poderoso Calisto Tanzi, à cadeia.
Parma Latte

Famosa pelo presunto de Parma e pelo queijo parmesão, além de ser a cidade onde a gigante do setor de alimentos Barilla foi fundada, Parma é mundialmente conhecida por ser a capital gastronômica da Itália. Foi nessa cidade, com menos de 200 mil habitantes localizada no norte da Itália, que a história da Parmalat teve o seu início.
Em 1961, o jovem Calisto Tanzi, com 22 anos de idade na época, abandonou a faculdade para tocar o modesto negócio de presuntos e massas de tomate da família logo após a morte de seu pai. Ambicioso, Calisto rapidamente decidiu expandir os negócios, e a sua principal aposta foi no mercado de laticínios, especialmente depois que descobriu uma tecnologia de uma empresa da Suécia, a Tetra Pak, que revolucionaria a maneira como o leite era envasado, distribuído e consumido.
Nascia assim a Parmalat, cujo nome é a combinação de Parma, sua cidade natal, com a palavra Latte, que significa leite em italiano. Com a embalagem da Tetra Pak, que fazia com que a validade do leite fosse significativamente maior do que os seus concorrentes, logo a Parmalat começou a ganhar mercado e a marca começou a ficar conhecida não só em Parma, mas em toda a Itália.

Para fortalecer a sua marca, a Parmalat passou a investir pesado em patrocínios esportivos, como a copa do mundo de ski em 1975 e a equipe de Formula 1 Brabham, de Niki Lauda e posteriormente Nelson Piquet na década de 70. Com um produto inovador (Leite Longa Vida) e uma estratégia de marketing certeira, nos anos 80 a Parmalat dominou o mercado de laticínios da Itália, com um market share de 55%.
Logo, o mercado italiano ficou pequeno para as ambições de Calisto, que deu início à expansão internacional da Parmalat. E assim como na Itália, a companhia dominou os mercados em que passou a atuar, atingindo market share de 90% em alguns países. Isso fez com que a fortuna e o prestígio de Calisto Tanzi aumentassem significativamente, tornando o empresário um símbolo de sucesso no meio empresarial italiano.
Avesso a aparições, Calisto discretamente construiu uma gigante do setor alimentício, que se tornou o oitavo maior grupo industrial da Itália nos anos 90, período em que abriu o capital da empresa na bolsa de Milão. Com o seu império crescendo rapidamente, logo o empresário começou a diversificar os seus investimentos em outros setores, como o de turismo, com a criação da Parmatour, que era administrada pela sua filha, Francesca Tanzi, e a emissora de televisão Odeon Tv. Além das novas empreitadas, Calisto Tanzi deu um passo ainda maior no meio esportivo, e no início da década de 90, ao invés de apenas patrocinar times de futebol como vinha fazendo, ele resolveu comprar um time. O Parma, que foi dirigido pelo seu filho, Stefano Tanzi.

No Brasil, embora com presença desde os anos 70, foi na década de 90 que a Parmalat teve seu maior crescimento. Por aqui, a estratégia de crescimento da Parmalat foi parecida com a utilizada na Itália: Muito investimento em marketing e diversas aquisições. No campo do marketing, a empresa italiana apostou pesado no futebol, ficando conhecida principalmente pelo patrocínio do Palmeiras, que durou entre 1992 e 2000 e resultou em diversos títulos para o clube paulista. Nesse período, que ficou conhecido como A Era Parmalat, o Palmeiras, que estava 16 anos sem ganhar títulos, ganhou o campeonato brasileiro em 93 e 94, o campeonato paulista em 93, 94 e 96; a copa do Brasil e a copa mercosul em 1998; e a libertadores em 1999.
Além do Palmeiras, outro clube brasileiro que se beneficiou da parceria com a Parmalat nessa época foi o Juventude, de Caxias do Sul, que com o apoio da gigante italiana chegou à elite do país em 1995. Dois anos mais tarde, classificou-se para a fase semifinal do torneio, que tinha dois grupos com quatro times em cada. Foi campeão gaúcho invicto em 1998 e, em 1999, conquistou a Copa do Brasil contra o Botafogo, no Maracanã.
Inclusive, tem uma história curiosa sobre a rápida passagem do lateral direito Cafu pelo Juventude, que durou apenas dois jogos. Em maio de 1995, Cafu foi apresentado como o grande reforço do Juventude para o final do Campeonato Gaúcho. O lateral, que estava no Zaragôza da Espanha, estreou contra o Ypiranga de Erechim por 3 a 2, onde participou diretamente do gol da vitória. Mas o que os torcedores do Juventude não sabiam é que a ida do lateral para o clube gaúcho não passava de uma artimanha jurídica para que o Palmeiras, que era o principal interessado na contratação do atleta, não pagasse uma multa imposta pelo São Paulo.

Só para você entender: quando o São Paulo vendeu o Cafu para o Zaragôza em 1995, o clube acrescentou uma cláusula estipulando que o clube espanhol não poderia vender o atleta para nenhum outro clube paulista, e se caso vendesse, deveria pagar uma multa de US$ 3,6 milhões. Para evitar de pagar a multa, a Parmalat comprou o lateral pelo Juventude e logo depois o transferiu para o Palmeiras, onde ficou por dois anos.
Mas voltando aos negócios da Parmalat, além da associação da marca com o futebol, em 1996, a empresa deu mais uma grande tacada de marketing no Brasil, com a icônica campanha publicitária "Mamíferos", feita pela prestigiada agência de publicidade DM9 de Nizan Guanaes e que até hoje é considerada uma das maiores campanhas da história.
O leite Parmalat se tornou rapidamente líder de mercado logo após o comercial ser veiculado. A campanha ganhou ainda mais projeção quando, em 1998, foram lançados bichinhos de pelúcia dos mamíferos segurando uma caixinha de leite. As pelúcias, que tiveram uma tiragem de 300 mil unidades no início da campanha, foram um sucesso tão grande, que a empresa teve que confeccionar 15 milhões de bichinhos no total.
Além dos investimentos em marketing, a multinacional italiana também realizou diversas aquisições por aqui, entre elas, as compras das empresas Batavo, Etti e Neugebauer em 1998. Embora a Parmalat tivesse operações em dezenas de países nessa época, rapidamente o Brasil se tornou um dos mercados mais importantes para a empresa, representando 40% do seu faturamento global em 1998. Nada parecia parar o crescimento explosivo da Parmalat, o então símbolo do sucesso industrial italiano. Até que a verdade veio à tona.
Castelo de Cartas

Depois de 4 décadas construindo um dos maiores grupos empresariais da Itália, a família Tanzi era motivo de orgulho da cidade de Parma, tal qual os Agnelli, donos da Fiat e da Juventus, eram para Turim. Dessa forma, muita gente ficou chocada quando, no final de 2003, foi descoberto que a Parmalat estava envolvida em um dos maiores escândalos corporativos da história da Europa.
O império da Parmalat começou a ruir em novembro de 2003, quando os auditores da companhia apontaram algumas inconsistências contábeis referente a um investimento da Parmalat de US$ 500 milhões em um fundo localizado nas ilhas Cayman, o Epicurum. No mês seguinte, mais um problema, dessa vez ainda maior. No dia 8 de dezembro de 2003, embora a Parmalat tenha reportado um caixa de 4 bilhões de euros no balanço, a companhia não honrou um pagamento de 150 milhões de euros de um título. O que gerou muitas dúvidas no mercado, afinal, se a empresa tinha todo esse dinheiro em caixa, não era só pagar os 150 milhões de euros? E é aqui que as coisas ficam ainda mais graves.
No dia seguinte ao calote, a agência de classificação de risco, Standard & Poors rebaixou a nota dos títulos da Parmalat para o mais baixo nível. Junk Bond! ou seja, grandes chances de calote! Isso fez com que tanto os títulos quanto as ações da empresa despencassem, fazendo com que as negociações fossem interrompidas. Foi nesse dia também que o fundador da empresa, Calisto Tanzi, renunciou ao cargo de CEO.

Mas a bomba mesmo viria no dia 16 de dezembro daquele ano, quando o Bank of America, notificou os auditores da empresa afirmando que uma conta de uma subsidiária da Parmalat nas ilhas Cayman, que supostamente deveria ter 3,95 bilhões de euros era falsa. A notícia, que chocou o mercado, foi confirmada oficialmente pela Parmalat no dia 19 de dezembro. A fraude estava exposta! A Parmalat vinha maquiando os seus balanços há anos. No dia 27 de dezembro, a Parmalat foi declarada oficialmente como insolvente, e Calisto Tanzi foi acusado de fraude e foi preso em Milão, na Itália. No total, a fraude da Parmalat deixou um rombo de mais de 14 bilhões de euros, causando um prejuízo a milhares de investidores que possuíam os títulos da empresa.
Segundo as investigações, a Parmalat estava maquiando seus balanços desde 1990, e em todo esse período que a companhia reportou lucro, na verdade ela teve prejuízo em 12 dos 13 anos. Dessa forma, com os números inflados artificialmente, uma série de malabarismos financeiros e subsidiárias em diversos paraísos fiscais, a companhia de Calisto Tanzi não tinha problemas em obter empréstimos bancários e emitir títulos para levantar capital.
Segundo as autoridades, os recursos eram utilizados tanto para cobrir as operações deficitárias da empresa, especialmente no Brasil, quanto para cobrir os prejuízos dos outros negócios comandados por Calisto Tanzi. Inclusive, o próprio Calisto Tanzi confessou ter desviado mais de 600 milhões de euros das contas da Parmalat. De acordo com o Wall Street Journal, mais da metade dos 14 bilhões de euros, ou 7,4 bilhões de euros, vieram de investidores que adquiriram os títulos da Parmalat entre 1990 e 2003. O restante do valor a empresa levantou com bancos italianos e estrangeiros.
As Consequências para Parmalat

Calisto Tanzi foi condenado a 17 anos e 5 meses de prisão pelos crimes de fraude de mercado, falência fraudulenta, entre outras acusações. Em 2011 a Parmalat foi comprada pela gigante francesa Lactalis, hoje considerada a maior empresa de laticínios do mundo.
Por aqui, a marca da Parmalat ainda esteve envolvida na polêmica da Laep Investments, que comprou a operação brasileira da empresa e deu um golpe de 5 bilhões de reais nos seus investidores, mas isso vamos deixar para outro vídeo. Em janeiro de 2022, aos 83 anos, Calisto Tanzi, que cumpria prisão domiciliar, morreu na Itália vítima de uma pneumonia.
Mas e você, o que achou desse escândalo envolvendo a Parmalat?