Uma empresa. 20% do PIB de um país.
Na edição de hoje: Carl Icahn: o homem que Wall Street aprendeu a temer; Hermès Birkin: A estratégia por trás da bolsa mais desejada do mundo e Uma empresa. 20% do PIB de um país.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
📈 Carl Icahn: o homem que Wall Street aprendeu a temer

Carl Icahn cresceu em Far Rockaway, no Queens, um bairro em Nova York que ele mesmo descreve como “duro”. Filho de professores, foi o primeiro aluno da Far Rockaway High School a ser admitido em Princeton, onde se formou em filosofia em 1957.
Depois, começou medicina na NYU mas acabou abandonando para servir o exército. Não havia nenhum sinal óbvio de que aquele jovem indeciso sobre a carreira se tornaria um dos investidores mais influentes da história financeira americana.
A virada veio pelos mercados. Em 1961, Icahn começou como corretor na Dreyfus Corporation, mas o crash que se seguiu logo depois o convenceu a buscar algo menos exposto à volatilidade. Migrou para opções financeiras, um mercado de nicho que poucos entendiam bem na época, primeiro na Tessel Patrick & Co. e depois na Gruntal & Co.
Em 1968, pediu US$ 400 mil emprestado a um tio, comprou uma cadeira na Bolsa de Nova York e fundou a Icahn & Co. A empresa focava em arbitragem e estratégias de opções, marcando seu início como “corporate raider”.
Na virada dos anos 1970 para os 1980, Icahn desenvolveu o método que o tornaria famoso e controverso ao mesmo tempo: identificar empresas cujas ações negociavam abaixo do valor real dos ativos, comprar uma participação expressiva e pressionar a diretoria a fazer mudanças que beneficiassem os acionistas.
Se a gestão recusasse, ele ameaçava uma tomada hostil. Se a empresa comprasse de volta suas ações a um preço inflacionado para se livrar dele, ficava com o lucro assim mesmo. A prática ganhou um nome próprio, chamado de greenmail. Os diretores das grandes corporações americanas aprenderam a reconhecer o nome Icahn num extrato acionário com a mesma sensação de quem reconhece tempestade no horizonte.
A lista de empresas onde entrou nos anos 1980 foi diversa, com nomes como Hammermill Paper, Marshall Field’s, Phillips Petroleum, US Steel, Texaco e ACF Industries. Em 1989, vendeu sua participação na Texaco por US$ 2 bilhões, onde obteve um lucro de US$ 700 milhões.
Na época, Icahn já era um nome extremamente popular no mercado financeiro dos Estados Unidos. Tanto que inspirou o personagem Gordon Gekko no filme “Wall Street” (1987) através de suas táticas agressivas de aquisição e reestruturação de empresas.
No entanto, uma das suas histórias mais controversas foi sua relação com a TWA (1925-2001). Em 1985, assumiu o controle da companhia aérea, que já acumulava prejuízos significativos. Tornou a empresa privada (fechou capital na bolsa), vendeu ativos estratégicos, incluindo as rotas mais lucrativas, embolsou US$ 469 milhões de lucro pessoal e deixou a empresa com US$ 540 milhões em dívidas.
Em 1992, a TWA entrou com o Chapter 11, o pedido de proteção contra falência. Para Icahn, foi um negócio bem-feito. Para os credores e funcionários da companhia, imagino que não. Contudo, nos anos seguintes, a companhia continuou amargurando resultados deficitários e, em 2001, foi totalmente absorvida pela American Airlines
A segunda fase da carreira veio com a transição para o que o mercado passou a chamar de investidor ativista. A diferença de rótulo importa pouco na prática, onde o método era o mesmo, mas o discurso evoluiu de “vou desmontar sua empresa” para “vou tornar sua empresa melhor para os acionistas.”
Nos anos 2000 e 2010, entrou na Netflix, no eBay, na Apple e em dezenas de outras empresas. Pressionou o eBay a separar o PayPal em empresa independente. Pediu à Apple que acelerasse o programa de recompra de ações. O mercado criou um termo para o efeito do seu nome num extrato acionário, o Icahn Lift. Isso significava a valorização quase automática das ações quando se descobre que ele comprou uma participação.
Em 2023, a empresa de análise Hindenburg Research publicou um relatório acusando a Icahn Enterprises de superavaliação e alegando que Icahn havia dado suas próprias ações como garantia de empréstimos sem divulgar adequadamente a informação. As ações despencaram 20% no mesmo dia. Em 2024, a SEC multou Icahn em US$ 2 milhões pela falta de transparência. Para um homem que construiu carreira exigindo governança das empresas onde investia, a ironia não passou despercebida.
Carl Icahn passou seis décadas provando que um único investidor determinado pode forçar as maiores companhias do mundo a mudarem de direção. O debate sobre se ele deixou as empresas melhores ou apenas mais rentáveis para ele mesmo nunca foi resolvido. Provavelmente, as duas coisas são verdadeiras em proporções que variam caso a caso.
Hoje, aos 90 anos, o lendário investidor continua sendo uma figura ativa e influente em Wall Street, embora enfrente desafios significativos após problemas de saúde e em sua vida pessoal.
Por aqui apenas encurtamos a história. Se você quiser um vídeo sobre a trajetória de Icahn, deixe sua mensagem nos comentários.
👜 Hermès Birkin: A estratégia por trás da bolsa mais desejada do mundo

Em 1983, a atriz britânica Jane Birkin embarcou em um voo da Air France de Paris para Londres com uma cesta de vime cheia de scripts, fraldas e tudo mais que uma mãe jovem carregava. Ao tentar guardar a bolsa no compartimento superior, a tampa abriu e os objetos se espalharam pelo avião.
O passageiro do assento ao lado se levantou para ajudar. Era Jean-Louis Dumas, presidente executivo da Hermès. Da conversa que se seguiu sobre a falta de bolsas práticas e elegantes para mães que trabalham, Dumas saiu com um esboço rabiscado no saquinho de enjoo do avião.
Logo no ano seguinte, a Birkin estava nas prateleiras. Em 2025, o protótipo original que Dumas presenteou a Jane Birkin foi vendido em leilão por US$ 10,1 milhões, o valor mais alto já pago por uma bolsa na história.
Quando falamos do produto em si, existe um processo meticuloso por trás de cada unidade vendida. Cada Birkin é feita por um único artesão, do início ao fim, num processo que leva entre 15 e 20 horas. A Hermès nunca divulgou o número exato de bolsas produzidas por ano, e essa opacidade é totalmente proposital.
Os couro usados variam do Togo e Clemence nos modelos de entrada até peles de crocodilo, aligátor e avestruz nas versões exóticas. O modelo Himalayan Birkin, feito em crocodilo Niloticus tingido num gradiente branco e cinza inspirado nos picos nevados da Ásia Central, é produzido apenas uma ou duas vezes por ano no mundo inteiro. Unidades raras chegaram a ser vendidas por mais de US$ 500 mil em leilão.
Mas o que transformou a Birkin num fenômeno de mercado sem precedentes não foi apenas o produto. Foi o sistema de acesso construído ao redor dele. Você não entra numa loja da Hermès e compra uma Birkin. Não existe esse caminho. Para ser considerado elegível, o cliente precisa ter um histórico de compras na marca, tendo adquirido lenços, cintos, calçados, porcelanas ou qualquer outro item do catálogo.
Só depois de acumular uma relação de consumo relevante com o vendedor e com a loja é que o cliente pode receber, num dia qualquer, uma ligação discreta informando que há uma bolsa disponível. A cor, o tamanho e o modelo chegam como surpresa. Recusar é tecnicamente possível, mas não recomendado para quem queira ser chamado novamente.
A Hermès eliminou a fila de espera formal nos anos 1990, quando a demanda tornou o sistema impraticável. O que substituiu foi mais sofisticado, criando uma lista de desejos informal, gerenciada por cada vendedor individualmente, sem regras publicadas, sem prazo garantido e sem critérios divulgados.
O resultado é que comprar uma Birkin exige paciência, relacionamento e, frequentemente, meses ou anos de espera. Isso mantém o desejo permanentemente aquecido e o preço em valorização constante.
A estratégia tem consequências financeiras mensuráveis. Estudos mostram que a Birkin valorizou mais de 500% nos últimos 35 anos, o equivalente a uma valorização anual média de 14%. A Hermès chegou a citar dados próprios em processos judiciais afirmando que a bolsa superou tanto o ouro quanto o S&P 500 no mesmo período.
A Birkin começou como solução prática para uma mãe que não encontrava bolsa decente no mercado e se tornou o ativo de moda mais valorizado do mundo. No entanto, o que realmente nos chama atenção nesse caso é como a marca de Thierry Hermès criou um instrumento de fidelização de clientes e um caso estudado nas principais escolas de negócios do planeta.
Jane Birkin, a mulher que “emprestou” o nome, recebia apenas US$ 39 mil anuais em royalties, que sempre doou para a caridade. Ela faleceu em 2023 tendo possuído apenas alguns exemplares da bolsa ao longo da vida, todos personalizados com causas que apoiava.
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Quando alguém menciona sobre a Samsung, a imagem que vem à mente (inclusive a minha) é quase sempre a de um smartphone. Talvez um televisor, uma geladeira ou um ar condicionado acabe vindo em segundo plano.
O que poucas pessoas sabem é que a mesma empresa que fabrica o Galaxy também constrói navios petroleiros, ergue arranha-céus, vende seguros de vida e opera o parque temático mais antigo da Coreia do Sul. Mas como isso foi possível?
Para entender a trajetória da empresa precisamos voltar para 1938. Na época, Lee Byung-chul fundou a empresa em uma pequena cidade sul-coreana com quarenta funcionários vendendo peixe seco, macarrão e produtos agrícolas locais (o negócio era aleatório mesmo).
A Samsung (Três Estrelas em coreano) nasceu com esse nome para representar algo grandioso. Algo bem ambicioso para uma pequena distribuidora de alimentos, mas Lee tinha planos além do peixe seco. Na década de 1950, a empresa já havia entrado no setor de seguros, comprado bancos comerciais, montado uma refinaria de açúcar e construído a maior fábrica têxtil da Coreia do Sul.
A eletrônica entrou no portfólio apenas em 1969, com a criação da Samsung-Sanyo Electronics, que produziu seu primeiro televisor em preto e branco em 1970. Na mesma época, a Samsung entrou pesado na indústria naval e de construção pesada, criando a Samsung Heavy Industries em 1974.
A construção civil veio logo depois com participação relevante nas obras das Torres Petronas na Malásia, do Taipei 101 em Taiwan e do Burj Khalifa nos Emirados Árabes Unidos. São três dos edifícios mais icônicos do mundo, construídos pela mesma empresa que fabrica chips de memória. Curioso, não?
O coração tecnológico do grupo ficou mais forte na virada dos anos 1990. Em 1992, a Samsung se tornou a maior produtora de chips de memória do mundo, posição que sustenta até hoje. Os semicondutores se tornaram o maior gerador de receita do grupo, superando até os smartphones.
Isso significa que a Samsung produz os chips que estão dentro dos iPhones, nos servidores da Amazon e nos computadores Dell, além de competir diretamente com todos eles em outros mercados. É uma posição interessante ao mesmo tempo em que é fornecedor e concorrente das maiores empresas de tecnologia do mundo.
O portfólio atual do grupo inclui cerca de 80 subsidiárias. A Samsung Life Insurance é a 14ª maior seguradora de vida do mundo. A Samsung Heavy Industries foi a segunda maior construtora naval do planeta por receita em 2010. A Cheil Worldwide, agência de publicidade do grupo com mais de 8.000 funcionários, é a 10ª maior do mundo em termos de receita.
O grupo também opera o Hotel Shilla, uma das redes de hotelaria de luxo mais tradicionais da Coreia do Sul, e o parque temático Everland, o mais antigo do país.
Há uma dimensão econômica que torna tudo isso ainda mais impressionante. As empresas afiliadas da Samsung respondem por aproximadamente 20% do PIB total da Coreia do Sul. Para ter dimensão do que isso significa, é literalmente uma única empresa privada gerando um quinto da produção econômica de um país inteiro. Não é exagero dizer que a Coreia do Sul moderna, o que o mundo chama de “Milagre do Rio Han”, foi construída em grande parte sobre a estrutura da Samsung.
O smartphone no seu bolso é apenas a parte visível de um grupo que navega mares, assegura vidas, constrói torres e fabrica os chips que movem a economia digital global. No fim, a Samsung que o mundo conhece é a menor parte da Samsung que realmente existe.

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