Todeschini: dos acordeões aos móveis planejados

Na edição de hoje: O império secreto da família Ferrero; A ascensão da Whoop e o dilema da tecnologia no esporte e Todeschini: dos acordeões aos móveis planejados.

Compartilhar
Todeschini: dos acordeões aos móveis planejados

“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger

🌰 O império secreto da família Ferrero

Giovanni Ferrero, CEO da Ferrero.

Nutella, Ferrero Rocher e Tic Tac. Três produtos simples, embalagens reconhecíveis e presença constante em supermercados, aeroportos e mesas de café da manhã ao redor do mundo. O que quase ninguém percebe é que, por trás desses ícones populares, existe uma das empresas mais fechadas, discretas e bem-sucedidas do capitalismo moderno.

A história da companhia começou em 1946, na pequena cidade de Alba, no norte da Itália. Pietro Ferrero era um confeiteiro tentando resolver um problema do pós-guerra. Chocolate era caro e escasso, enquanto avelãs eram abundantes na região. A solução foi criar um doce à base de avelã que pudesse substituir o chocolate tradicional.

A virada verdadeira veio com Michele Ferrero, filho de Pietro. Ele entendeu cedo que o diferencial não estava apenas na receita, mas na disciplina. A Ferrero passou décadas obcecada por controle de qualidade, segredo industrial e independência. A empresa evitava entrevistas, recusava investidores externos e mantinha decisões concentradas na família.

Quando a Nutella foi lançada oficialmente, em 1964, não era apenas mais um doce. Era um produto pensado para criar hábito diário. O mesmo raciocínio valeu para o Tic Tac, desenhado para consumo rápido e recorrente, e para o Ferrero Rocher, criado especificamente para ocasiões de presente. Cada item tinha um papel claro na vida do consumidor, onde nada era acidental.

Assim, a Ferrero passou décadas acumulando caixa, reinvestindo lucros e evitando dívidas excessivas. Essa paciência estratégica permitiu que, já no século XXI, a empresa começasse a fazer movimentos grandes quando muitos concorrentes estavam enfraquecidos.

Nos últimos anos, sob o comando de Giovanni Ferrero, a companhia acelerou aquisições estratégicas, especialmente nos Estados Unidos. Comprou marcas tradicionais, entrou em novas categorias e expandiu muito além do chocolate. Ainda assim, manteve a mesma lógica de sempre. Pouco barulho, integração cuidadosa e foco extremo no produto. A Ferrero cresceu sem perder o controle, algo cada vez menos comum em empresas desse tamanho.

Hoje, o grupo é um dos maiores conglomerados alimentícios do mundo, com presença mundial e marcas que atravessam gerações. A Ferrero provou que, em um mercado obcecado por escala rápida e visibilidade, crescer com estratégia ainda pode ser uma das técnicas mais eficientes que existem.



⌚ A ascensão da Whoop e o dilema da tecnologia no esporte

Will Ahmed, CEO e fundador da Whoop.

A Whoop se tornou o acessório onipresente nos pulsos da elite esportiva, mas essa pulseira sem tela e de aparência minimalista carrega uma filosofia de dados que desafia a lógica dos smartwatches comuns.

Diferente de um Apple Watch, que busca ser um computador de pulso, a Whoop nasceu com outro propósito: monitorar não o que você faz, mas como o seu corpo reage ao que você faz. A jornada dessa tecnologia, que hoje vale bilhões, começou em Harvard com um problema comum a todo atleta de alto rendimento: o overtraining.

Em 2012, Will Ahmed era capitão da equipe de squash de Harvard e percebeu que, apesar de treinar exaustivamente, nem sempre sabia se seu corpo estava realmente pronto para o esforço. O cansaço era subjetivo, os dados, não.

Assim, ele fundou a Whoop com a ideia de que o sono e a recuperação eram tão importantes quanto o suor na quadra. A pulseira foi desenhada para ser discreta e coletar métricas como a variabilidade da frequência cardíaca 24 horas por dia, transformando sinais biológicos em uma pontuação de “recuperação”.

Antes de se tornar febre mundial, a marca seguiu uma estratégia de exclusividade: os primeiros 100 usuários incluíam nomes como LeBron James e Michael Phelps. O dispositivo não vende o hardware, mas sim uma assinatura de dados. Ele não tem GPS, não recebe mensagens e não brilha no escuro. Sua função é ser um sensor silencioso que ajuda o atleta a decidir se deve acelerar ou descansar.

A grande virada de popularidade trouxe a Whoop para o centro de uma polêmica recente no tênis profissional. Durante o Australian Open, o fenômeno espanhol Carlos Alcaraz foi flagrado usando o dispositivo sob uma munhequeira elástica. Antes de uma partida decisiva contra Tommy Paul, a árbitra Marija Cicak foi implacável: Alcaraz precisou remover a pulseira em quadra.

O episódio gerou um debate acalorado. A Federação Internacional de Tênis (ITF) proíbe tecnologias que possam facilitar instruções externas ou influenciar apostas esportivas através da transmissão de sinais biológicos. De um lado, os organizadores defendem a integridade do esporte; do outro, Will Ahmed, CEO da Whoop, disparou em suas redes sociais: “Dados não são esteroides”. Para a marca, impedir que um atleta monitore seu próprio esforço físico em tempo real é como pedir para que joguem às cegas sobre a própria saúde.

No Brasil, a Whoop segue a tendência de se tornar um símbolo de status entre biohackers e entusiastas da performance. Embora o custo de importação e a assinatura em dólar sejam barreiras, a presença de ídolos como Cristiano Ronaldo e Virgil van Dijk usando o sensor consolidou o objeto como o “padrão ouro” do monitoramento de recuperação.

Ao retirar a tela e focar nos algoritmos de recuperação, a Whoop mudou a forma como entendemos o limite do corpo. O caso de Alcaraz na Austrália mostra que, enquanto a tecnologia avança para dentro da pele e dos tecidos, o mundo das regras esportivas ainda tenta descobrir onde traçar a linha entre a informação útil e a vantagem desleal.


Já conhece os outros canais do Curioso Mercado?

📹 Youtube, com versões mais detalhadas das curiosidades de negócios.

📱 Instagram, com curtinhas, reels com histórias de negócios e muito mais!

📖 Biblioteca do Curioso, com livros sobre as melhores histórias do mundo dos negócios.

📞 Canal no WhatsApp, com notícias e curiosidades diárias para você ficar por dentro de tudo.


🛋️ Todeschini: dos acordeões aos móveis planejados

José Eugênio Farina (1925-2020), o empresário que transformou a Todeschini.

A história da Todeschini é uma das que mais gosto quando falamos de empreendedorismo brasileiro aqui no Curioso Mercado. Além da marca principal, o grupo engloba as marcas de móveis Italínea e Criare, a marca de escritórios Avantti, a linha de móveis seriados Carraro e a financeira Todescredi.

Mas poucos sabem que por trás da marca que hoje figura entre as maiores fabricantes de móveis planejados do país existe uma trajetória de visão, disciplina e curiosidade.

Tudo começou de forma simples e em um segmento nada relacionado com a principal atividade da empresa atualmente: a fabricação de gaitas (acordeões). Pois é. A fábrica de gaitas Todeschini teve origem no início do século XX quando Luiz Matheus Todeschini, então aprendiz na oficina de Luigi Somensi, se encantou pelo instrumento.

Juntos, aprimoraram seus conhecimentos e iniciaram a fabricação de gaitas. No entanto, em 1932, após o falecimento de Somensi, Todeschini adquiriu a fração da empresa que havia ficado para a viúva de Somensi. Assim, surgiu a “Grande Fábrica de Instrumentos Musicais e Foles Luiz M. Todeschini”.

O início dos anos 60 foi uma época em que o Brasil ainda buscava se industrializar e muitos negócios familiares tentavam se firmar em nichos específicos. Na época, a fábrica viveu o seu auge, fabricando mais de 1,5 mil gaitas por mês.

Nos anos 1970, José Eugênio Farina adquiriu ações de alguns sócios da empresa. No entanto, 51 dias depois, um incêndio de grandes proporções atingiu a fábrica. Além disso, as vendas dos instrumentos estavam em decadência diante da popularização das guitarras elétricas e dos teclados.

Apesar do incidente, José Eugênio seguiu em frente e mudou drasticamente os rumos de sua empresa. Ao invés da fabricação de acordeões, a Todeschini passaria a fabricar móveis.

Nas décadas seguintes, o mercado de móveis no Brasil passou por transformações significativas. Houve urbanização acelerada, mudanças nos padrões de consumo e uma demanda crescente por soluções sob medida.

A Todeschini, que começara com móveis sob encomenda, viu ali uma oportunidade. Em vez de permanecer apenas como mais uma marcenaria, a empresa investiu em produção industrializada e ampliou sua oferta. Ao mesmo tempo, manteve o DNA de projeto personalizado, algo que muitas fábricas mais mecânicas deixaram de lado.

Outro ponto marcante da trajetória foi a expansão da rede de lojas próprias e franquias. A marca entendeu cedo que móveis planejados não eram apenas objetos, mas projeto de vida. Entrar em um lar com um conceito de design integrava não apenas a venda de um produto, mas a construção de um ambiente. Essa visão de longo prazo diferenciou a Todeschini de muitos concorrentes que focavam apenas em preço ou volume.

A década de 1990 foi um período de consolidação. A economia brasileira passava por ciclos de inflação, controle monetário e mudanças nas preferências do consumidor, e a Todeschini surfou essas ondas. A empresa investiu em padronização de processos, treinamento de equipe e desenvolvimento de linhas que respondiam às necessidades reais de moradia de famílias em diferentes regiões do país.

Com o tempo, a marca deixou de ser apenas uma referência regional e passou a ser nacional. A rede de franquias cresceu, os produtos se diversificaram e a Todeschini consolidou seu espaço no segmento de móveis planejados.

O resultado dessa trajetória é uma história que mistura a força de um negócio familiar com a capacidade de adaptação a mercados que mudam rapidamente. Assim como já escrevemos nessa edição da newsletter sobre a Ferrero, a Todeschini não se tornou grande por acaso.

Cresceu ao conseguir aliar controle familiar, tecnologia, inovação e um forte posicionamento de mercado, o que a diferenciou da concorrência. Talvez seja justamente isso que torne sua trajetória tão especial para quem gosta de observar como negócios brasileiros conseguem transcender barreiras e se transformar em ícones ao redor do mundo.


🔥 Rodada de notícias da semana!

👳 Do chão de fábrica à Sadia Halal: a liderança de Marquinhos Molina no Oriente Médio

💸 Fuga de títulos da Raízen e da CSN reacende temor sobre dívida corporativa brasileira

📈 Mercado de IPOs nos EUA perde fôlego após recuo em estreias e adiamentos

🍫 Do cacau ao leite: Ferrero vê agricultura como a próxima fronteira da descarbonização


📝 Conteúdos que recomendamos:

📖 Livro da semana: As cartas de Warren Buffett: Lições de investimento e gestão selecionadas das cartas aos acionistas da Berkshire Hathaway

“As Cartas de Warren Buffett” reúne os principais ensinamentos do investidor a partir de décadas de cartas aos acionistas da Berkshire Hathaway. Selecionados por temas, os textos revelam com clareza a filosofia de investimento, gestão e alocação de capital de Buffett, sempre guiada por simplicidade, disciplina e visão de longo prazo. Além de um manual prático sobre negócios e finanças, o livro é uma leitura acessível e bem-humorada sobre como tomar decisões consistentes ao longo do tempo.

📧 Deseja anunciar para milhares de pessoas na newsletter? Clique aqui.

▶️ Para assistir: Paes Mendonça: O Nordestino que criou um Império do Varejo