Sky: pioneirismo, queda e turnaround
Na edição de hoje: Jesse Livermore, o maior especulador de todos os tempos; Pavel Durov e o universo paralelo russo e Sky: pioneirismo, queda e turnaround.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
📈 Jesse Livermore, o maior especulador de todos os tempos

Jesse Lauriston Livermore talvez seja a figura mais emblemática que Wall Street já produziu. Sinceramente, nem sei por que ainda não havíamos escrito sobre ele, afinal, Livermore foi um ícone do mercado financeiro norte-americano.
Jesse Livermore nasceu em 1877 em Shrewsbury, Massachusetts, e começou a trabalhar aos 14 anos em uma corretora em Boston, anotando cotações em um quadro negro enquanto os telégrafos transmitiam os preços das bolsas.
Não tinha capital, não tinha conexões e não tinha formação. Tinha memória fotográfica para números e uma capacidade incomum de enxergar padrões. Em pouco tempo, descobriu que conseguia prever movimentos de preços antes que eles acontecessem.
Os primeiros lucros vieram nos bucket shops, casas de apostas informais onde se especulava sobre movimentos de preços sem comprar ações de verdade. Livermore ganhou o apelido de “Boy Plunger” por seus sucessos especulativos nesses ambientes, antes de migrar para Nova York e operar nas bolsas de verdade.
A transição foi difícil, isso porque o mercado real se movia de forma diferente dos bucket shops, e ele perdeu quase tudo nas primeiras tentativas. Voltou para os bucket shops, reconstruiu o capital e voltou a Nova York com mais paciência e um método mais refinado.
Mas, o episódio que consolidou sua reputação foi o Pânico de 1907. Livermore ficou famoso por sua capacidade de prever tendências de mercado e construiu sua fortuna vendendo a descoberto durante as crises, incluindo o Pânico de 1907 e o crash de 1929.
Em 1907, enquanto a maioria dos investidores tentava entender o que estava acontecendo, ele já estava posicionado para lucrar com a queda. O mercado desabou e Livermore embolsou milhões. J.P. Morgan, que liderou o esforço de estabilização do sistema financeiro naquele ano, pediu pessoalmente que ele parasse de vender a descoberto para não piorar o pânico.
O pico da carreira foi 1929 quando Livermore antecipou o crash e abriu posições vendidas em diversas ações. Quando o mercado colapsou, ele teria lucrado US$ 100 milhões, uma das maiores fortunas acumuladas em uma única operação na história de Wall Street até aquele momento. Só para termos uma dimensão, era o equivalente a bilhões em valores atuais.
O problema de Livermore era que ele sabia ganhar, mas não sabia parar. Estava falido novamente ao final de 1934, suspenso do Chicago Board of Trade e declarando falência pela terceira vez na vida. O padrão se repetiu ao longo de décadas já que ele construía fortuna na mesma velocidade que perdia.
O homem que ganhou e perdeu fortunas de forma cíclica durante quarenta anos deixou para o mercado algo que nenhum dinheiro compra: um manual sobre como a mente humana funciona quando há capital em risco. Mas que ele mesmo não conseguiu seguir o tempo todo é apenas a parte mais honesta da história.
💰 Napoleon Hill em edição completa pela primeira vez no Brasil
Quando Edwin C. Barnes desceu de um trem de carga em East Orange, New Jersey, há mais de um século, sua aparência não dizia muita coisa. Mal tinha dinheiro para passagem regular. Foi até o laboratório de Thomas Edison e anunciou que estava ali vindo fazer negócios com o inventor, não trabalhar para Edison, mas tornar-se sócio dele.
Edison contratou Barnes para um cargo qualquer, com salário insignificante. Cinco anos depois, quando o inventor aperfeiçoou a Máquina de Ditar, o Ediphone, e nenhum vendedor estava entusiasmado em comercializá-la, Barnes foi até ele e disse que conseguia vender.
E vendeu. Vendeu tão bem que Edison lhe deu um contrato para distribuí-la por todo o país. Daquela sociedade, ele construiu uma fortuna estimada em dois ou três milhões de dólares.
A história de Barnes abre Pense e Enriqueça, livro que Napoleon Hill publicou em 1937 depois de vinte anos analisando alguns dos maiores nomes do capitalismo americano da virada do século – Ford, Edison, Rockefeller, Wanamaker, Gillette, Eastman. Ao estudar o que separava quem realizava algo grande de quem não conquistava, Hill desenvolveu um método simples e poderoso para enriquecer. E neste livro, ele o apresenta em 13 princípios.

Quase noventa anos depois, esses princípios continuam válidos e inspiram empresários, investidores e profissionais a entender o que, de fato, move quem constrói algo do zero.
A Portfolio-Penguin lança agora a edição original completa de Pense e Enriqueça, com posfácio inédito de Betina Roxo. Vale como documento histórico, um retrato dos bastidores de uma geração que ergueu o capitalismo americano, contado por dentro.
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💻 Pavel Durov e o universo paralelo russo

Pavel Durov nasceu em 1984 em São Petersburgo, filho de um professor de filologia, e passou parte da infância em Turim, na Itália, onde o pai lecionava. Voltou para São Petersburgo, estudou na universidade local e, aos 22 anos, cofundou o VKontakte em 2006 com dois colegas de faculdade, Lev Leviev e Vyacheslav Mirilashvili (obrigado Google).
A ideia era simples e não tão inovadora, mas Durov e seus sócios queriam criar uma rede social para o público russo, em uma época em que o Facebook ainda não havia dominado o mundo. Focado no público local, o VK cresceu rápido, mas acabou durando pouco nas mãos de quem o criou.
Assim, o VK se tornou a maior rede social da Rússia, frequentemente descrita como o equivalente russo do Facebook, mas estrutural e culturalmente distinto. Em poucos anos, a plataforma tinha dezenas de milhões de usuários e Durov era celebrado como o grande nome da tecnologia russa, referido como o “Mark Zuckerberg da Rússia”.
O problema é que na Rússia, crescer rápido demais significa atrair atenção de quem não tolera independência. Em 2011, as autoridades russas exigiram acesso aos dados dos usuários do VK para monitorar dissidentes políticos, contudo, a empresa acabou recusando.
A pressão foi aumentando até o ponto de ruptura. Em 2014, Durov disse que havia sido demitido do VK. A empresa, por sua vez, afirmou que estava agindo com base em uma carta de demissão anterior que não havia sido revogada.
Durov deixou a Rússia vendendo sua participação, após se recusar a entregar dados criptografados dos usuários às autoridades. No entanto, o homem não saiu de cabeça baixa e sem dinheiro. Usou os US$ 300 milhões da venda para dar sequência ao financiamento de seu projeto mais recente, o Telegram.
Lançado em 2013 com o irmão Nikolai, matemático e criptógrafo que projetou a arquitetura de criptografia da plataforma, o Telegram cresceu rapidamente.
Durov, por sua vez, adotou um estilo de vida nômade, renunciou à cidadania russa e estruturou seus novos negócios para minimizar a dependência de qualquer jurisdição. O Telegram foi construído em torno dessa convicção, com criptografia robusta, moderação mínima e resistência sistemática a qualquer pedido governamental de acesso a dados.
O Telegram chegou a ser banido na Rússia entre 2018 e 2020, após Durov se recusar a entregar ao FSB (Serviço Federal de Segurança da Federação Russa) as chaves de criptografia que dariam acesso às mensagens dos usuários. O banimento não funcionou, tecnicamente e politicamente, e foi revertido.
Em agosto de 2024, Durov foi preso pela polícia francesa em Paris, alvo de investigação criminal relacionada a falhas de moderação de conteúdo no Telegram, que abrangia desde fraudes e tráfico de drogas até cyberbullying e promoção de terrorismo.
O caso expôs uma tensão que a plataforma carrega desde o primeiro dia. Liberdade de comunicação e impunidade para conteúdo ilegal são coisas distintas, mas no Telegram as duas coexistem de forma incômoda.
O Telegram tem hoje mais de 1 bilhão de usuários mensais e Durov comanda a empresa de Dubai. Apesar da trajetória extensa, rodeada de altos e baixos, Durov tem apenas 41 anos. Fundou sua primeira rede social aos 22, perdeu para o Kremlin aos 29, construiu uma das plataformas mais influentes do mundo no exílio e foi preso em um aeroporto europeu aos 39. O que vem a seguir é uma pergunta em aberto, mas a história sugere que ele não vai parar por aqui.
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📡 Sky: pioneirismo, queda e turnaround

A Sky chegou ao Brasil em novembro de 1996 como a primeira operadora de TV por assinatura via satélite do país. Uma verdadeira inovação para a época.
Digital, de ponta, para quem podia pagar. Era uma promessa de modernidade em um mercado onde a TV a cabo ainda não chegava à maior parte do território nacional. Essa limitação geográfica dos concorrentes era a maior vantagem da Sky, justamente porque onde o cabo não ia, o satélite chegava.
Nos anos seguintes, a empresa foi construindo um portfólio de pioneirismos. Em 2011, foi a primeira a oferecer 4G na América Latina, em parceria com a Telebrás. Em 2017, investiu R$ 1,3 bilhão no lançamento do satélite Sky Brasil-1, apostando na liderança em HD e na expansão de canais. O pico veio em 2015, com 5,7 milhões de assinantes.
Depois, o mercado mudou drasticamente. A Netflix e outros streamings cresceram e a fibra óptica dos provedores regionais avançou para onde o cabo nunca havia chegado. O cliente que antes precisava de satélite para ter TV de qualidade passou a ter opções melhores e mais baratas. A Sky perdeu assinantes ano após ano, sem conseguir segurar uma queda que não era sobre preço ou qualidade de sinal.
A resposta veio com tentativas de diversificação que revelavam uma empresa em busca de identidade. Em 2022, entrou no mercado de fibra óptica chegando a mais de 220 municípios via redes neutras. No final de 2025, vendeu essa base de clientes para a Flix Fibra e virou a página.
Mais recentemente, em março de 2026, lançou a Sky Móvel, uma operadora de telefonia móvel que não possui infraestrutura própria em parceria com a TIM. Em abril, fez um rebranding completo que diz muito sobre as mudanças mais recentes, com o slogan “onde tudo se conecta.” TV por assinatura, streaming e telefonia móvel em um mesmo lugar.
A grande aposta, porém, é a Sky Link, serviço de internet via satélite em parceria com a Amazon Kuiper, concorrente direta da Starlink de Elon Musk. A holding Waiken ILW, o grupo controlador da empresa, pretende aportar US$ 450 milhões em investimentos entre 2026 e 2031, metade destinada ao Brasil.
Em trinta anos, a Sky saiu de pioneira absoluta da TV por satélite, perdeu o protagonismo para o streaming e a fibra, e voltou ao ponto de partida com o satélite como solução para onde nenhuma outra tecnologia consegue chegar.
A ironia é que a empresa que quase foi destruída pela modernização do mercado agora aposta sua sobrevivência justamente na mesma infraestrutura que marcou sua origem. Desta vez, porém, disputa espaço com a líder global do setor, a Starlink, projeto de Elon Musk.

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