Silvio Santos: muito além da TV
Na edição de hoje: A IWC e a psicologia de Carl Jung; George Foreman: do boxe para a cozinha e Silvio Santos: muito além da TV.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
🕓 A IWC e a psicologia de Carl Jung

Carl Gustav Jung foi um dos psicólogos mais influentes da história, responsável por conceitos que definiram a forma como o mundo entende a mente humana com trabalhos desenvolvidos sobre o inconsciente coletivo, os arquétipos, a introversão e extroversão.
Mesmo para quem não tem conhecimento profundo em psicologia ou psiquiatria (como é o caso do editor aqui), Carl Jung é um daqueles nomes que ultrapassaram as fronteiras da própria área e se tornaram reconhecidos muito além do nicho acadêmico.
Mas há um detalhe da sua biografia que quase ninguém conhece: por mais de duas décadas, Jung foi coproprietário de uma das maiores empresas de relógios de luxo do mundo, a IWC.
A história começa em 1868, quando o engenheiro americano Florentine Ariosto Jones fundou a International Watch Company (IWC) em Schaffhausen, no norte da Suíça. Jones pretendia combinar a precisão artesanal suíça com os métodos industriais modernos que havia aprendido nos Estados Unidos e exportar relógios de alta qualidade para o mercado americano.
O projeto funcionou tecnicamente, mas Jones não conseguiu satisfazer os acionistas e voltou para os Estados Unidos em 1875. Em 1880, a família Rauschenbach, industrialistas de Schaffhausen, assumiu o controle da empresa.
Os Rauschenbach comandaram a IWC por quatro gerações. O patriarca Johannes Rauschenbach-Vogel morreu apenas um ano após a aquisição, deixando para o filho Johannes Rauschenbach-Schenk, então com 25 anos, a tarefa de conduzir a fábrica. O jovem herdeiro mostrou talento para o negócio e levou a empresa a crescer de 104 funcionários em 1889 para 190 em 1901. Mas morreu prematuramente em março de 1905, aos 48 anos, sem deixar herdeiros homens.
Foi aí que Carl Jung entrou no quadro societário. Dois anos antes, em 1903, ele havia se casado com Emma Rauschenbach, uma das filhas do falecido dono da IWC. Pela lei suíça da época, os bens da esposa pertenciam legalmente ao marido. Com a morte do sogro, Jung e sua cunhada Bertha, com o marido Ernst Jakob Homberger, tornaram-se coproprietários da fábrica. Jung passou a deter 25% da IWC enquanto construía sua carreira como psiquiatra e desenvolvedor da psicologia analítica.
A propriedade da IWC teve um papel discreto, mas decisivo, na trajetória intelectual de Jung. Em seu livro sobre a vida do psicólogo, o biógrafo Ronald Hayman registrou que o próprio Jung reconheceu que a independência financeira proveniente da fortuna dos Rauschenbach lhe permitiu arriscar mais nas suas teorias.
Sem ela (a IWC), como ele mesmo reconhece, ‘eu teria sido muito mais cauteloso ao expressar minhas opiniões, e muitas coisas teriam tomado um rumo diferente’”.
Apesar disso, Jung nunca se envolveu ativamente na gestão da empresa. Era o cunhado Homberger quem tocava o negócio com mão firme, guiando a IWC pelos anos turbulentos da crise dos anos 1930 e das duas guerras mundiais.
Em 1929, Homberger comprou a participação de Jung e se tornou o único proprietário da fábrica. Jung saiu do negócio de relógios com a mesma discrição com que havia entrado.
Homberger usou os anos seguintes para consolidar o que é hoje o legado mais reconhecido da marca. Em 1936, lançou o primeiro relógio especial para pilotos, inaugurando a linha que tornaria a IWC famosa no mundo inteiro.
Em 1939, atendendo a um pedido de importadores portugueses que queriam relógios de pulso com a precisão de um cronômetro de bolso, saiu de Schaffhausen o primeiro Portugieser, hoje um dos modelos mais cobiçados da relojoaria de luxo. Em 1955 veio o Ingenieur, o primeiro relógio com proteção antimagnética.
A IWC foi vendida ao grupo Richemont em 2000 por 2,8 bilhões de francos suíços, encerrando mais de um século de propriedade familiar. Hoje é uma das marcas da alta relojoaria mais relevantes do mundo, com uma coleção de movimentos manufaturados internamente e uma lista de espera para alguns de seus modelos mais complexos.
Resta a curiosidade de imaginar o que teria sido da psicologia analítica se os Rauschenbach não tivessem construído uma fábrica de relógios em Schaffhausen. Jung explorou os territórios mais profundos da mente humana com um IWC no bolso e os dividendos de uma empresa suíça pagando as contas.

🥊 George Foreman: do boxe para a cozinha

George Foreman cresceu em um dos bairros mais violentos do Texas, comendo sanduíches de maionese no almoço escolar por falta de dinheiro para outra coisa. Largou a escola aos 15 anos e entrou para o crime, onde sua ambição declarada na época era ir para a prisão e montar a gangue mais temida de Houston.
A virada começou aos 16, quando, fugindo da polícia após um assalto, Foreman se escondeu e ficou deitado no barro por horas, pensando. Nos dias seguintes, inscreveu-se no Job Corps, programa federal do governo Lyndon Johnson para jovens em situação de vulnerabilidade.
Foi lá que conheceu Doc Broaddus, instrutor de boxe e ex-lutador, que enxergou no garoto raivoso e corpulento algo que valia a pena desenvolver. Três anos depois, George Foreman estava na Olimpíada do México, em 1968, acenando com uma pequena bandeira americana após vencer o ouro no peso pesado.
Em 1973, se tornou campeão mundial invicto dos pesos pesados, com 40 vitórias e 37 nocautes. Era jovem, brutal e considerado praticamente imbatível. Em outubro de 1974, foi para Kinshasa, no Zaire, enfrentar Muhammad Ali numa luta que ficaria conhecida para sempre como o Rumble in the Jungle. Foreman entrou no ringue como favorito absoluto. Ali deixou Foreman se esgotar jogando socos no ar e o nocauteou no oitavo round. Era a primeira derrota profissional de Foreman.
O que aconteceu nos três anos seguintes mudou tudo. Em 1977, após uma derrota em Porto Rico, Foreman largou o boxe para se tornar pastor. Vendeu casas, vendeu o rancho, voltou para Houston e abriu a Igreja do Senhor Jesus Cristo e o George Foreman Youth and Community Center, um espaço para jovens em situação semelhante à que ele havia vivido. Por dez anos, ficou fora do esporte completamente.
O retorno ao ringue, em 1987, aos 38 anos e pesando quase 130 quilos, foi amplamente ridicularizado. Foreman alegou que voltava para arrecadar dinheiro para o centro comunitário, que enfrentava dificuldades financeiras.
O que se seguiu foi uma das histórias mais improváveis do esporte mundial. Em novembro de 1994, aos 45 anos, nocauteou Michael Moorer no décimo round usando os mesmos calções que havia usado contra Ali vinte anos antes e se tornou o campeão mais velho da história dos pesos pesados.
O boxe lhe rendeu uma boa grana: US$ 5 milhões pelo Rumble in the Jungle e contratos expressivos ao longo da história. Mas no fim, nada próximo do que ainda estava por vir.
Em 1994, a fabricante Salton Inc. procurou Foreman para endossar uma grelha elétrica de mesa com design inclinado, que prometia grelhar sem fumaça e com menos gordura.
O produto havia sido oferecido antes a Hulk Hogan, que não retornou a ligação. Foreman disse sim, gravou os infomerciais com entusiasmo genuíno declarando “é tão bom que coloquei meu nome nela” e a George Foreman Lean Mean Fat-Reducing Grilling Machine, ou George Foreman grill, virou um fenômeno cultural nos anos 1990. Será que Hogan se arrependeu?
No auge das vendas, Foreman recebia 40% dos lucros da Salton, o que se traduzia em US$ 4,5 milhões mensais. Em 1999, a empresa comprou os direitos perpétuos de uso do seu nome por US$ 137 milhões, sendo aproximadamente US$ 103 milhões em dinheiro e o restante em ações.
Em 2014, Foreman disse que havia ganhado “muito mais do que US$ 200 milhões” com as grelhas, chegando a receber US$ 8 milhões por mês em determinado período. A marca vendeu mais de 100 milhões de unidades em 15 anos.
Uma geração inteira cresceu conhecendo George Foreman como o homem da grelha, sem saber que ele havia sido um dos lutadores mais temidos do século XX. Era exatamente o tipo de ironia que Foreman apreciava. O garoto que queria construir a gangue mais violenta de Houston acabou construindo um dos negócios mais lucrativos da história do esporte, com o mesmo nome que um dia carregou no ringue.
Morreu em março de 2025, aos 76 anos, como bicampeão mundial dos pesos pesados e dono de uma das marcas de utensílios domésticos mais vendidas da história.
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📺 Silvio Santos: muito além da TV

Senor Abravanel, popularmente conhecido como Silvio Santos, começou vendendo capas de plástico para títulos de eleitor nas ruas do Rio de Janeiro aos 14 anos. Faleceu em agosto de 2024, aos 93, dono de um conglomerado com negócios em televisão, cosméticos, capitalização, hotelaria e imóveis.
O primeiro grande negócio veio por acidente. Em 1958, seu amigo radialista Manoel de Nóbrega estava com o Baú da Felicidade em apuros, após um sócio aplicar um golpe e sumir com o dinheiro dos clientes. Na época, a empresa literalmente vendia baús que continham presentes de Natal a prestações, ou seja, os clientes encomendavam e iam pagando ao longo do ano para receber depois.
Silvio entrou para ajudar a apagar o incêndio, ficou olhando para o que restava e enxergou um modelo viável. Assumiu o negócio, expandiu o portfólio de brinquedos para eletrodomésticos, móveis e outros produtos domésticos, e criou um sistema de crediário ao contrário: o cliente pagava o carnê primeiro e retirava o produto no fim do ano. No Brasil dos anos 1960, sem crédito acessível para a classe trabalhadora, o modelo funcionou em escala massiva.
A televisão chegou como ferramenta de vendas antes de se tornar um negócio em si. Em 1962, Silvio alugou um horário dominical na TV para promover o Baú da Felicidade e surgiu o Programa Silvio Santos, com shows, brincadeiras e prêmios atrelados aos carnês. Ali, Silvio entendeu que entretenimento e comércio podiam ser o mesmo produto.
Em 1965, formalizou o Grupo Silvio Santos. Em 1976, inaugurou a TVS, a televisão que seria o embrião do seu maior ativo. Em 1981, após vencer a concessão de quatro novos canais, lançou o Sistema Brasileiro de Televisão, o SBT, que entrou no ar em 19 de agosto com o Programa Silvio Santos na tela.
Assim, toda marca do grupo tinha espaço garantido na programação. Era um ciclo que poucos empresários de comunicação no mundo souberam montar com tanta clareza.
Nos anos 1990, o SBT atravessou uma crise severa após o Plano Collor. Para se reinventar, Silvio criou um plano de saúde com título de capitalização, mas desistiu quando soube de uma morte ligada a um hospital conveniado e transformou a estrutura que havia montado na Tele Sena, o título de capitalização mais famoso do Brasil.
O cliente tentava a sorte e tinha a garantia de receber metade do valor de volta. Chegou a ser investigado como loteria disfarçada, mas após disputas judiciais acabou vencendo.
Em 2006, dobrou a aposta com a Jequiti, empresa de cosméticos e perfumaria com modelo de venda direta. Foram mais de 700 produtos e 170 mil consultoras espalhadas pelo país. A estratégia era a mesma de sempre, usar o SBT como plataforma de lançamento. Aposto que você lembra dos anúncios da Jequiti piscando na tela brevemente, certo?
Desse modo, o programa Roda a Roda Jequiti entrou na grade com a filha Rebeca Abravanel à frente, transformando um quadro dominical em ação permanente de marketing. A marca chegou a ser avaliada em torno de R$ 450 milhões. O grupo acrescentou ainda a Sisan Empreendimentos Imobiliários, fundada em 1990, e o Hotel Jequitimar no Guarujá, hoje administrado pelo Grupo Accor.
No entanto, nem tudo deu certo. O Banco PanAmericano, que pertencia ao grupo, esteve no centro de um dos maiores escândalos financeiros do Brasil. Em 2010, um rombo de cerca de R$ 4 bilhões foi descoberto na instituição, envolvendo ativos e créditos fictícios registrados por diretores. Silvio vendeu o banco ao BTG por cerca de R$ 450 milhões em 2011. Inclusive, já fizemos um vídeo em nosso canal sobre a fraude. Você pode assistir clicando aqui.
O que Silvio Santos construiu não foi apenas um grupo empresarial. Apesar de algumas polêmicas envolvendo a sua trajetória, fato é que Silvio constituiu uma estratégia concreta de comunicação e audiência. O camelô das ruas do Rio nunca parou de ser camelô, só trocou a calçada por um estúdio de televisão com milhões de espectadores do outro lado.

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