Ricardo Faria: o Rei do Ovo e seus negócios
Na edição de hoje: US$ 70 bilhões depois, o futuro ainda não chegou; Inovou demais, Goodyear? e Ricardo Faria: o Rei do Ovo e seus negócios.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
🥽 US$ 70 bilhões depois, o futuro ainda não chegou

Sempre que você ousar imaginar que fez algum negócio ruim, lembre-se do metaverso da Meta. Não atoa, em poucos anos, a Meta Platforms conseguiu transformar uma visão de futuro em um prejuízo acumulado de cerca de US$ 70 bilhões, um dos experimentos mais caros da história recente da tecnologia.
A aposta era ambiciosa desde o início: criar um universo digital persistente que redefiniria a forma como pessoas trabalham, consomem e se relacionam na internet.
Com isso, a narrativa parecia irresistível. O metaverso foi apresentado como a próxima evolução natural da web, um ambiente onde presença física deixaria de ser limite e onde novas economias nasceriam. O discurso era tão forte que a empresa decidiu mudar seu próprio nome, sinalizando ao mercado que aquela não era apenas uma iniciativa paralela, mas o centro da sua estratégia de longo prazo.
Com isso vieram investimentos em escala industrial. Bilhões foram direcionados para pesquisa, contratação de talentos, desenvolvimento de hardware e construção de plataformas que ainda não tinham público definido.
O problema é que o futuro não chegou no ritmo esperado. Usuários não abraçaram os mundos virtuais como espaços cotidianos, empresas não migraram suas operações e o ecossistema permaneceu restrito a demonstrações, curiosidade e uso esporádico. Enquanto isso, os custos seguiam crescendo trimestre após trimestre, transformando visão estratégica em pressão constante sobre os resultados.
Diante desse cenário, a empresa recalculou a rota. O metaverso continuou existindo, mas perdeu o status de prioridade máxima. O foco passou a recair sobre inteligência artificial e dispositivos com aplicação mais imediata, como os óculos inteligentes desenvolvidos em parceria com marcas consolidadas.
Grandes apostas movem o mundo, mas também cobram um preço alto quando o mercado não acompanha. Às vezes, o maior aprendizado não vem do sucesso, mas do custo de acreditar cedo demais em um amanhã que ainda não estava pronto.

🛞 Inovou demais, Goodyear?

No começo dos anos 1960, quando o design automotivo flertava com a ficção científica (pouco depois de Marty McFly voltar no tempo), a Goodyear decidiu que pneus não precisavam ser apenas pretos, discretos e funcionais.
Em 1961, dois engenheiros da empresa desenvolveram um novo composto sintético translúcido, capaz de ser moldado em cores vivas e assumir formas que a borracha tradicional não permitia. A ideia não era apenas técnica, era estética e simbólica, um sinal de que até a parte mais esquecida do carro poderia virar protagonista.
O conceito foi levado um passo além quando alguém teve a ousadia de iluminá-lo por dentro. Pequenas lâmpadas instaladas no interior das rodas faziam o pneu brilhar à noite em tons de verde, azul ou vermelho, transformando ruas comuns em vitrines futuristas. Executivos chegaram a imaginar um mercado onde motoristas escolheriam a cor dos pneus como escolhiam estofamento ou pintura, combinando com o carro, com a roupa ou simplesmente com o humor do dia.
Os pneus luminosos passaram a circular em carros de demonstração e rapidamente viraram atração. No entanto, a promessa não era só visual, mas também no potencial incremento de segurança e maior visibilidade à noite.
Mas bastou colocar esses pneus no mundo real para o encanto começar a desaparecer. O novo material tinha baixa aderência em pista molhada, sofria com frenagens mais agressivas e não lidava bem com o calor gerado pelo uso contínuo. A transparência desaparecia com poeira e desgaste, e o brilho que deveria ajudar acabava distraindo motoristas e pedestres.
Depois de anos de testes e de um entusiasmo que nunca saiu do campo experimental, o projeto foi abandonado. Os pneus iluminados não fracassaram por falta de imaginação, mas por excesso dela em um mundo que ainda exigia confiabilidade acima de tudo. Ficaram restritos a exposições, protótipos e lembranças curiosas de uma época em que inovação e espetáculo caminhavam lado a lado.
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🐣 Ricardo Faria: o Rei do Ovo e seus negócios

Nascido no Rio de Janeiro e criado no sul de Santa Catarina, Ricardo Faria é o nome por trás da Granja Faria e da Global Eggs. Empreendedor desde cedo, construiu um legado que o levou à lista de bilionários da Forbes Brasil, com patrimônio estimado em mais de R$ 17 bilhões, e ao apelido que resume sua trajetória: o Rei do Ovo.
A Granja Faria nasceu em 2006 em Lauro Müller (SC) e por anos consolidou sua liderança no Brasil através de foco em eficiência, escala e bem-estar animal. Enquanto muitos produtores viam os ovos apenas como commodity, Faria passou a integrar produção, distribuição e inovação em um modelo que tornou cada etapa mais competitiva e sustentável.
A empresa chegou a produzir cerca de 16 milhões de ovos por dia e detém aproximadamente 10% do mercado nacional, com 34 unidades em dez estados e exportações para 17 países.
Esse impulso interno foi só o começo. Em 2024, Faria estruturou a holding Global Eggs, sediada em Luxemburgo, com o objetivo de transformar sua operação brasileira em uma plataforma internacional de ovos. O primeiro passo foi a aquisição do espanhol Grupo Hevo, um dos maiores produtores da Europa, incorporando quatro milhões de aves e centenas de funcionários à sua cadeia internacional.
O movimento mais ousado veio em 2025, quando a Global Eggs anunciou um acordo para comprar a americana Hillandale Farms, uma das maiores produtoras de ovos dos Estados Unidos, por cerca de US$ 1,1 bilhão. Essa transação não só representou a entrada direta da empresa de Faria no mercado norte-americano, mas também posicionou a Global Eggs como um player gigante no setor de ovos, com receita combinada estimada em mais de US$ 2 bilhões entre seus negócios no Brasil, na Europa e nos EUA.
Para além das operações no setor de ovos, Faria também diversificou sua atuação com outras empresas, como a Insolo, voltada à gestão agrícola em grãos e fibras, e a Fertifar, de fertilizantes, consolidando um ecossistema empresarial robusto sob a holding RCF Capital.
Hoje, a trajetória de Ricardo Faria e das empresas que lidera ilustra um modelo de crescimento baseado em escala e visão de longo prazo. A consolidação da Granja Faria no mercado brasileiro e a expansão internacional por meio da Global Eggs refletem uma estrutura focada em eficiência, governança e competitividade.

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