Por que a Dinamarca produz tantas empresas globais?
Na edição de hoje: Um homem e 5% do petróleo do Oriente; S&P: Três letras e alguns trilhões e Por que a Dinamarca produz tantas empresas globais?

“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
⛽ Um homem e 5% do petróleo do Oriente

Justamente no período em que estamos vivendo de alta volatilidade nos mercados e todos de olho no preço do petróleo, a história de Calouste Gulbenkian, ou o Mr. Five Percent para os íntimos, se torna ainda mais interessante.
Gulbenkian não perfurou um único poço de petróleo na vida. Não tinha campos, não tinha refinarias, não operava oleodutos. Mas, ele tinha a capacidade de sentar entre impérios rivais e convencê-los a assinar acordos que sem ele jamais existiriam. Por esse serviço, cobrava sempre a mesma taxa de 5% de tudo. Quando morreu em 1955, era o homem mais rico do mundo segundo algumas fontes.
Nascido em 1869 em Constantinopla (atual Istambul), em uma família armênia de comerciantes com conexões no Império Otomano, Gulbenkian estudou engenharia em Londres e voltou ao Oriente Médio com a missão de elaborar um levantamento das reservas de petróleo da Mesopotâmia para o ministro das finanças otomano.
Para fazer o relatório, leu livros de viagem e entrevistou engenheiros ferroviários. O documento que entregou convenceu o governo otomano de que havia petróleo em escala monumental no que hoje é o Iraque. Assim, Gulbenkian sabia disso antes de qualquer companhia ocidental.
A fuga para o exílio em 1896, após os massacres armênios, levou a família ao Egito e depois a Londres. Em 1907, intermediou a fusão entre a Shell e a Royal Dutch, duas empresas que não se falavam, retendo uma participação para si como remuneração pelo serviço.
Em 1912, foi o arquiteto da Turkish Petroleum Company, consórcio que reuniu os maiores interesses petroleiros europeus para explorar a Mesopotâmia. Negociou as participações de cada parte e reservou 15% para si como uma “comissão” pela organização do consórcio (o homem era bom de lábia).
Após pressão britânica que reduziu sua fatia, ficou com 5%. Manteve esse percentual pelo resto da vida, independentemente de guerras, impérios desmoronando ou governos mudando.
O Acordo da Linha Vermelha, assinado em 1928 e redigido em parte pelo próprio Gulbenkian, foi o documento que consolidou o controle ocidental sobre o petróleo do Oriente Médio por décadas.
O acordo proibia que qualquer signatário explorasse petróleo de forma independente dentro da área delimitada por uma linha vermelha desenhada sobre o mapa, que cobria praticamente todo o antigo território otomano.
Gulbenkian desenhou a linha de memória, de cabeça, sem consultar nenhum mapa. Estava dentro dos 5% de tudo que houvesse ali dentro. As empresas que ele ajudou a criar e estruturar ao longo da carreira incluem a Royal Dutch Shell e a Total, hoje duas das maiores petroleiras do mundo.
A Segunda Guerra Mundial levou Gulbenkian a Lisboa, onde parou a caminho da América e nunca mais foi embora. Conduzia seus negócios de lá, recebendo emissários das principais companhias petrolíferas do mundo em um quarto de hotel português.
Comprou obras de arte diretamente de Stalin, adquirindo peças que o líder soviético vendia do acervo do Hermitage para conseguir divisas. A Coleção Calouste Gulbenkian, sediada em Lisboa, é uma das mais importantes coleções privadas de arte do mundo, reunindo cerca de 6.000 peças adquiridas pelo magnata.
Morreu em julho de 1955, aos 86 anos, deixando a fortuna e a coleção de arte para a Fundação Calouste Gulbenkian, sediada em Lisboa, hoje uma das maiores fundações filantrópicas do mundo.
O homem que nunca perfurou um poço ficou com 5% do petróleo que moveu o século XX. Gulbenkian deixou a lição de que quem une os lados de uma negociação pode valer mais do que qualquer um dos lados. Curioso, não?

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📈 S&P: Três letras e alguns trilhões

Em 2011, a Standard & Poor’s rebaixou a nota de crédito dos Estados Unidos de AAA para AA+. O país mais poderoso do mundo acordou com uma notícia um tanto quanto alarmante e os mercados despencaram.
A S&P admitiu depois um erro de US$ 2 trilhões nos cálculos que justificavam o rebaixamento, mas manteve a nota mesmo assim. Contudo, o impacto na época foi grande. Assim, quando uma empresa erra US$ 2 trilhões, corrige o cálculo e mantém a decisão, você entende o tamanho do poder que ela tem.
A agência de classificação de risco não cresceu do dia para a noite. Em 1860, Henry Varnum Poor, um analista financeiro de Maine, publicou o livro chamado “History of Railroads and Canals in the United States.” O objetivo era dar transparência aos investidores sobre o estado financeiro das ferrovias americanas, um setor em plena expansão.
Do outro lado, em 1906, Luther Lee Blake fundou a Standard Statistics Bureau, que fazia algo semelhante para empresas fora do setor ferroviário.
Em franco crescimento, em 1941, as duas companhias se fundiram e nasceu a Standard & Poor’s Corporation. O nome era novo, mas o negócio foi o mesmo de sempre: vender informação confiável em um mundo onde informação confiável era escassa.
A grande inovação que transformou a S&P em empresa mundial foi o sistema de letras. AAA para o devedor mais confiável do planeta. D para quem já deixou de pagar. Entre os dois extremos, uma escala completa que se tornou a linguagem universal do risco financeiro. Bancos, fundos de pensão, seguradoras e governos do mundo inteiro passaram a usar esse alfabeto como referência.
O S&P 500 é o outro braço que faz o nome da empresa aparecer no noticiário todos os dias. Lançado em 1957 na forma atual, o índice reúne as 500 maiores empresas listadas nas bolsas americanas, ponderadas por valor de mercado.
O índice não é só um número, mas é o termômetro da economia americana que o mundo inteiro usa para tomar decisões. Trilhões de dólares em fundos de investimento passivo simplesmente replicam a composição desse índice, o que significa que entrar ou sair do S&P 500 pode mudar o preço de uma ação de forma imediata e significativa.
Em 2016, a Standard & Poor’s se reorganizou e passou a operar como divisão da S&P Global, conglomerado que hoje reúne ratings, índices, inteligência de mercado e dados de commodities. A divisão de ratings, batizada de S&P Global Ratings, já emitiu mais de 1,2 milhão de notas de crédito para empresas, países, municípios e instrumentos financeiros ao redor do mundo, cobrindo dívidas que somam dezenas de trilhões de dólares.
Junto com Moody’s e Fitch, forma o “Big Three” das agências de rating, um oligopólio que a crise financeira de 2008 expôs quando as três agências haviam dado notas AAA a pacotes de hipotecas podres que quebraram o sistema financeiro mundial. O Congresso americano investigou e a S&P pagou US$ 1,5 bilhão em acordos judiciais.
Henry Poor e Luther Lee Blake queriam apenas que os investidores soubessem onde estavam colocando o dinheiro. Observando nos dias atuais, o que eles construíram foi “apenas” uma das instituições mais poderosas e mais questionadas do capitalismo moderno. Nada mal para quem começou escrevendo sobre ferrovias.
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🏰 Por que a Dinamarca produz tantas empresas globais?

Mesmo com uma população de aproximadamente 6 milhões de habitantes, um pouco menos do que o estado do Maranhão, a Dinamarca abriga algumas das marcas mais reconhecidas do mundo. Lego, Maersk, Carlsberg, Pandora e Novo Nordisk são apenas alguns dos nomes que nasceram no país nórdico.
Esse movimento, no entanto, não é coincidência. Assim como a vizinha Suécia, com empresas como o Spotify, a Tetra Pak, Electrolux, Volvo, Scania e IKEA, há algo na herança dos vikings que faz com que esse povo pense sistematicamente em grande escala.
A Lego, por exemplo, começou em 1932, quando o carpinteiro Ole Kirk Christiansen começou a fabricar brinquedos de madeira em uma pequena oficina em Billund. A peça de plástico encaixável só viria em 1958, mas foi ela que transformou uma pequena marcenaria no sistema de brinquedo mais vendido do mundo.
A Maersk percorreu caminho semelhante quando foi fundada em 1904 por Peter Mærsk Møller como uma companhia marítima regional e se tornou o maior grupo de transporte de contêineres do planeta, responsável por movimentar cerca de 20% de tudo que é transportado por mar no mundo.
A Carlsberg, fundada em 1847 por J.C. Jacobsen nos arredores de Copenhague, se tornou uma das maiores cervejarias do mundo e, ao longo do caminho, financiou parte relevante da ciência dinamarquesa por meio de sua fundação, incluindo pesquisas que renderam prêmios Nobel.
A Pandora, mais jovem, foi fundada em 1982 por Per Enevoldsen em uma joalheria de Copenhague e hoje é a maior fabricante de joias do mundo em volume, com mais de 100 milhões de pulseiras vendidas por ano.
Mas foi a Novo Nordisk que redefiniu o que significa ser uma empresa dinamarquesa no século XXI. Fundada em 1923, a farmacêutica construiu ao longo de um século uma posição dominante no mercado de insulina e diabetes.
O salto para outro patamar veio com a semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, que transformou a Novo Nordisk em uma das empresas mais valiosas da Europa e gerou uma demanda que nenhuma fábrica no mundo conseguiu atender a tempo.
O impacto dentro da Dinamarca foi tão dramático que os economistas precisaram de uma nova linguagem para descrevê-lo. Sem a contribuição da Novo Nordisk, a economia dinamarquesa teria estagnado nos anos recentes.
A farmacêutica respondeu por uma parcela desproporcional do crescimento do PIB, gerou bilhões em impostos, pressionou o banco central a manter juros baixos para conter a valorização da coroa e financiou universidades, laboratórios e infraestrutura em cidades que sequer aparecem nos mapas turísticos. A pequena cidade de Kalundborg, onde fica a maior fábrica da empresa, passou a ser chamada informalmente de “Cidade Novo Nordisk.”
Esse nível de dependência de uma única empresa tem um nome entre os economistas, o chamado “risco Nokia”, em referência ao colapso da gigante finlandesa de telecomunicações nos anos 2000, que arrastou consigo boa parte da economia da Finlândia.
No auge, a Nokia respondia por cerca de 4% do PIB finlandês e metade de seu crescimento econômico. Quando a empresa não conseguiu acompanhar os concorrentes, o país inteiro sentiu. Os dinamarqueses sabem dessa história e olham para ela com uma mistura de orgulho e desconforto, conscientes de que o Ozempic pode ser, ao mesmo tempo, a maior conquista e a maior vulnerabilidade que o país já teve. Mas no fim, isso é papo para outro artigo.
O que une todas essas empresas é uma mentalidade que parece estar no DNA dos países nórdicos. Negócios feitos para internacionalizar cedo e não depender do tamanho do mercado doméstico para crescer. A Dinamarca, que nunca teve escala geográfica, aprendeu a “compensar” com gestão, pesquisa e desenvolvimento.

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