Os poderosos da Copa do Mundo

Na edição de hoje: ESPECIAL COPA DO MUNDO & NEGÓCIOS.

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Os poderosos da Copa do Mundo

“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger

⚽ A Copa de US$ 13 bilhões

A Copa do Mundo de Futebol de 2026 já começa na próxima quinta-feira com 48 seleções, 16 cidades sede e três países anfitriões. E, como acontece em todos os conteúdos do Curioso Mercado, nosso olhar está voltado para os negócios que movimentam esse espetáculo.

Além da bola rolando, por trás do maior torneio de futebol da história, a FIFA projeta receitas de US$ 13 bilhões no ciclo de quatro anos (2023-2026), com quase US$ 9 bilhões entrando apenas em 2026. Para efeito comparativo, as Olimpíadas de Paris 2024 geraram US$ 5,24 bilhões.

A venda de direitos de transmissão é o maior gerador de receita da FIFA, com projeções superiores aos US$ 3,4 bilhões do Catar. A expansão do torneio de 32 para 48 seleções aumentou o número de jogos de 64 para 104, dando à entidade muito mais conteúdo para vender. Além disso, a FIFA inovou ao vender direitos para transmissão ao vivo dos primeiros dez minutos de cada partida no TikTok e no YouTube, atraindo audiências mais jovens.

Em segundo lugar vêm as receitas de bilheteria e hospitalidade, estimadas em US$ 3 bilhões, ante US$ 950 milhões no Qatar. Os ingressos mais caros para a final no MetLife Stadium, em Nova Jersey, custam US$ 10.990, quase sete vezes o valor do ingresso mais caro da final de 2022.

Os patrocinadores globais, incluindo Adidas, Aramco e Coca-Cola, devem contribuir com US$ 2,7 bilhões em receitas comerciais, mais US$ 670 milhões em licenciamento. A FIFA fechou 16 acordos globais e uma série de patrocínios regionais e locais.

A inovação no modelo comercial também chamou atenção dessa vez. Ao invés de contratos fixos, as empresas agora podem adicionar pacotes de experiência, ingressos e eventos personalizados, tornando o produto mais flexível e mais caro ao mesmo tempo.

A Copa, porém, não é em um negócio de soma positiva para todos os envolvidos. As cidades sede americanas arcam com os custos de segurança, transporte e infraestrutura, enquanto a FIFA fica com a receita de transmissão, patrocínio, ingressos e até as taxas de estacionamento dos estádios.

Como organização sem fins lucrativos, a FIFA afirma que reinvestirá pelo menos US$ 11,67 bilhões dos US$ 13 bilhões em “desenvolvimento do futebol.” Cerca de US$ 2,7 bilhões irão para as 211 federações membro e seis confederações continentais.

O fundo de premiação das seleções foi elevado para US$ 871 milhões, com cada uma das 48 equipes garantindo no mínimo US$ 12,5 milhões e o campeão levando US$ 50 milhões.

A expansão do torneio, a diversificação das fontes de receita e a capacidade da FIFA de transformar audiência em faturamento revelam um modelo de negócios cada vez mais sofisticado.

Enquanto bilhões de pessoas estarão acompanhando os jogos dentro e fora dos estádios, a partida mais importante para a entidade continua acontecendo fora das quatro linhas.


⚽ Coca-Cola, Nike e Adidas: quem ganha a Copa das marcas

Segundo pesquisa do Instituto QualiBest realizada em fevereiro com 1.000 internautas de diferentes regiões e classes sociais, a Copa do Mundo já aparece de forma espontânea nas conversas do dia a dia ao lado de política e eleições. Para as marcas que patrocinam o evento, isso significa que a janela de oportunidade já começou antes de junho.

A pesquisa mediu quais marcas os brasileiros associam à Copa. De forma espontânea, Adidas lidera a lembrança. Quando estimulados com em uma lista de 40 marcas, a Coca-Cola assume a frente com 75% dos entrevistados, seguida por Nike com 65% e Adidas com 62%. Na sequência aparecem Itaú, Visa, Guaraná Antarctica, McDonald’s e Mercado Livre.

Fonte: QualiBest.

O impacto do patrocínio vai além da lembrança. Para 94% dos entrevistados, associar uma marca à Copa contribui positivamente para sua reputação. Os efeitos mais citados são percepção de modernidade, por 76%, confiabilidade, por 72%, e proximidade com as pessoas, por 70%.

Mais diretamente, 66% afirmam que o patrocínio aumenta o desejo de comprar produtos das marcas envolvidas, e 71% dizem que promoções ligadas ao evento influenciam suas decisões de consumo. Descontos lideram como principal atrativo, seguidos por brindes e sorteios.

O comportamento durante os jogos também diz muito sobre o consumidor atual. Em média, cada brasileiro realiza 2,6 atividades digitais simultâneas enquanto assiste às partidas, ou seja, 47% conversam no WhatsApp, 38% acompanham memes nas redes sociais e 30% consultam estatísticas em tempo real. Outros 29% pedem comida por delivery durante os jogos.

Tudo isso releva que a Copa não disputa unicamente a atenção do brasileiro. Ela divide essa atenção com outras seis telas ao mesmo tempo. Por aí também é assim?

A experiência ainda é majoritariamente doméstica e coletiva. Cerca de 64% pretendem assistir em casa, 72% planejam reunir a família para os jogos e 59% pretendem fazer churrasco. Refrigerante lidera as categorias de consumo associadas ao torneio, citado por 61%, seguido por carne, cerveja e petiscos.

No varejo, 35% pretendem comprar em uma camisa oficial da Seleção, e outros 24% optarão por versões não oficiais. Ao todo, 59% planejam adquirir em uma camisa, independentemente da origem. Trinta por cento pensam em comprar em uma Smart TV para a Copa.

Um fato interessante na pesquisa é de que a rejeição ao torneio como plataforma comercial é praticamente inexistente (cerca de 2%). Mas, além disso, o desafio para as marcas é estar presente na mente do consumidor em uma era em que a mesma atenção é dividida entre o jogo, o envio de áudios sacaneando o seu cunhado, o churrasco ou o delivery.


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⚽ Os poderosos da Copa do Mundo

Gianni Infantino, presidente da FIFA.

A Copa do Mundo de 2026 tem 48 seleções, mas os personagens que realmente controlam o torneio cabem em uma sala pequena. De um lado, Gianni Infantino, o presidente da FIFA que transformou o futebol em uma máquina de US$ 13 bilhões (apesar de algumas polêmicas). Do outro, os líderes e bilionários que perceberam que o esporte mais popular do mundo é também um dos ativos de marketing mais eficientes já criados.

Infantino chegou à presidência da FIFA em 2016 como candidato reformista, após o escândalo que derrubou Sepp Blatter. Dez anos depois, é descrito por críticos como alguém que superou o antecessor em concentração de poder.

Foi reeleito sem oposição em 2019 e 2023, alterou os estatutos da entidade para permitir em uma terceira candidatura e já marcou para março de 2027 o congresso que deve prolongar seu mandato. As 211 federações recebem US$ 5 milhões por ciclo de quatro anos, em uma estrutura que críticos comparam a em um sistema de “fidelização” (você entendeu).

A relação com líderes de estado é o exemplo mais visível da estratégia de Infantino. E por favor, vamos deixar a política de lado, nosso foco aqui são negócios. Mas, a proximidade não é coincidência tendo em vista que organizar uma Copa do Mundo depende de segurança federal e logística militar. Através dessa ótica, Infantino decidiu que valia a pena pagar o preço político da associação.

A Arábia Saudita é o caso mais revelador de como o futebol virou instrumento de expansão e diversificação de negócios. O reino sediou a Copa de Clubes em 2023, receberá a Copa do Mundo de 2034 e tem Mohammad bin Salman como um dos interlocutores mais frequentes de Infantino. A Aramco, estatal saudita de petróleo, é patrocinadora global da FIFA.

O modelo é consistente no Golfo, com o Catar comprando o PSG e os Emirados com o Manchester City. Cada aquisição e cada patrocínio gera visibilidade que nenhuma campanha publicitária compra com o mesmo alcance. E não é de hoje que falamos sobre isso em outras edições aqui da newsletter do Curioso.

O que a Copa de 2026 consolida é que futebol e negócios nunca estiveram tão explicitamente alinhados. Países compram sedes, clubes e patrocínios como compram participações em empresas através do retorno de imagem, pelo acesso a mercados e pela presença em conversas que de outra forma não seriam convidados a participar.


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