O maior IPO da história
Na edição de hoje: Richard Fuld Jr. e a maior falência da história americana; Estrela: o Banco Imobiliário em RJ e O maior IPO da história.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
🏦 Richard Fuld Jr. e a maior falência da história americana

Poucos nomes evocam tanta controvérsia no mercado financeiro quanto o de Richard S. Fuld Jr., o homem que presidiu o Lehman Brothers durante sua ascensão meteórica e seu colapso catastrófico em 2008.
Wall Street o chamava de “Gorila” pela postura agressiva e pelo estilo de gestão intimidador. Ele mesmo dizia que quando se fala sobre gerenciamento de risco, é necessário não se colocar em uma posição a qual você não possa sair para lutar outro dia. Entretanto, ele fez exatamente o oposto.
“The key to risk management is never putting yourself in a position where you cannot live to fight another day”.
Richard Fuld nasceu em 26 de abril de 1946 em Nova York e começou sua carreira no Lehman Brothers em 1969 como operador logo após se formar na Universidade do Colorado. Subiu rapidamente na hierarquia e logo se tornou supervisor das divisões de renda fixa e de ações no início dos anos 1980. Em 1994, quando o Lehman se separou do grupo American Express, Fuld foi nomeado chairman e CEO.
Sob sua liderança, o Lehman se transformou. A instituição que havia chegado à beira da insolvência na virada dos anos 1990 virou um dos bancos de investimento mais agressivos de Wall Street, apostando pesado no mercado imobiliário americano por meio de hipotecas de alto risco.
O balanço do banco cresceu, os bônus explodiram e Fuld foi eleito o melhor CEO do setor financeiro por diversas publicações americanas. No topo, o Lehman acumulou ativos de mais de US$ 600 bilhões e uma alavancagem de 30 vezes o patrimônio.
Em setembro de 2008, as ações do Lehman despencaram 77% nos primeiros sete dias do mês. Fuld tentou salvar o banco por meio de uma série de manobras, incluindo a separação dos ativos imobiliários comerciais em uma subsidiária independente.
O Bank of America e o Barclays chegaram a negociar uma aquisição, mas nenhum dos dois avançou. Em 15 de setembro, o Lehman Brothers entrou com pedido de falência com US$ 619 bilhões em dívidas, a maior quebra corporativa da história americana até então. O colapso foi o início do pânico que se tornaria a crise financeira global de 2008. Inclusive, já fizemos vídeo no canal sobre o assunto, clique aqui para acessar (mas só depois).
Em 2015, em uma de suas primeiras aparições públicas após o colapso, Fuld disse que “não passa um dia” sem que pense no Lehman, mas que era hora de seguir em frente. Em 2016, fundou a Matrix Private Capital Group, uma gestora de ativos que atende indivíduos e famílias de alto patrimônio e segue firme e forte (ou nem tanto) em Wall Street.
⭐ Estrela: o Banco Imobiliário em RJ

Acho que uma das notícias que mais tiveram destaque na mídia durante a última semana foi a recuperação judicial da Estrela. Apesar de o instrumento judicial ter se tornado bastante frequente nos meses mais recentes por empresas em dificuldades financeiras, a RJ da Estrela toca o coração da turma criada nos anos 80/90.
A Manufatura de Brinquedos Estrela existe desde 1937. Sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, ao milagre econômico, à hiperinflação dos anos 1980, ao Plano Collor e a quatro décadas de instabilidade macroeconômica brasileira.
Mas, em 20 de maio de 2026, a fabricante do Banco Imobiliário, do Detetive, do Genius e da boneca Susi entrou com pedido de recuperação judicial, encerrando quase oito décadas de listagem em bolsa sem jamais ter recorrido à proteção da lei.
A empresa nasceu em São Paulo em 1937 e cresceu durante o boom industrial brasileiro do pós-guerra e logo se tornou a maior fabricante de brinquedos do país. O Banco Imobiliário chegou ao Brasil em 1945, licenciado do Monopoly americano, e se tornou o jogo de tabuleiro mais vendido da história nacional.
O Genius, lançado em 1978, foi o primeiro eletrônico de consumo massivo do mercado brasileiro. Por décadas, a Estrela não fabricava apenas brinquedos, mas também fabricava memória afetiva, um ativo que parecia intangível o suficiente para durar para sempre.
No comunicado, a Estrela atribuiu o pedido a três pressões combinadas: aumento do custo de capital e restrição de crédito, mudança no comportamento de consumo com avanço de alternativas digitais, e o efeito cumulativo desses fatores sobre a estrutura financeira do grupo. O valor de mercado da companhia em maio de 2026 estava em torno de R$ 42,7 milhões, menos do que a dívida tributária original representava em uma única parcela anual.
O que aconteceu com a Estrela não é apenas uma história isolada de má gestão. É o retrato de um setor inteiro pressionado por transformações que nenhum plano de negócios dos anos 1990 previa, especialmente a digitalização. Agora, cabe à empresa fazer o dever de casa, se reorganizar e adaptar seu modelo de negócios a uma nova era.
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💸 O maior IPO da história

A SpaceX protocolou publicamente o pedido de IPO na semana passada. O roadshow deve começar em 4 de junho, com precificação prevista para uma semana depois e estreia no Nasdaq em 12 de junho.
Se tudo correr conforme o planejado, será o maior IPO da história, em um patamar que a bolsa americana jamais observou. Outra questão relevante nessa trama é de que Elon Musk, o principal acionista da companhia, já pode ser o primeiro trilionário do mundo mesmo antes das ações começarem a ser negociadas.
A empresa busca levantar até US$ 80 bilhões em uma avaliação que pode chegar a US$ 2 trilhões. Em dezembro, a SpaceX havia sido avaliada em US$ 800 bilhões. Em abril, negociações no mercado secundário a colocaram em US$ 1,54 trilhão. Hoje, esse número chega a US$ 1,7 trilhão. Em pouco mais de seis meses, a empresa mais que dobrou de valor antes de abrir o capital. Se chegar a US$ 2 trilhões após o IPO, entrará no grupo das cinco empresas mais valiosas do mundo no dia da estreia.
De mesmo modo, os “beneficiados” vão além de Musk. A COO Gwynne Shotwell e o CFO Bret Johnsen terão participações avaliadas em mais de US$ 1 bilhão cada. Antonio Gracias, diretor da empresa e sócio do fundo Valor Equity Partners, detém 503 milhões de ações que podem ultrapassar US$ 70 bilhões em valor.
Fundos que apostaram cedo também estão colhendo agora. A Darsana Capital Partners, que tem 60% de seus ativos investidos na SpaceX desde 2019, pode registrar ganhos acima de US$ 10 bilhões. A D1 Capital Partners, que investiu cerca de US$ 600 milhões, acumula ganhos em papel de aproximadamente US$ 9 bilhões.
Do lado operacional, os números justificam parte do entusiasmo. A SpaceX detém mais de 80% dos lançamentos de foguetes do mundo e tem mais de 10.000 satélites Starlink em órbita. A receita cresceu mais de 30% no ano passado, chegando a US$ 18,7 bilhões, e o Starlink mais que dobrou seu lucro para US$ 4,4 bilhões. O resultado líquido foi negativo por conta das perdas da xAI, braço de inteligência artificial de Musk que ainda queima caixa em escala significativa.
Pelos Estados Unidos, já tem gente dizendo “never bet against Elon.” É uma frase que resume bem o momento: o maior IPO da história, de uma empresa que controla 80% dos lançamentos de foguetes do mundo e orbita mais de 10.000 satélites, sendo precificada antes mesmo de abrir o capital. Ao que aparenta, o mercado não está comprando uma ação. Está comprando uma aposta em um homem.

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