O lado obscuro do maior império digital da China

Tencent: a história da empresa que criou o aplicativo mais poderoso do planeta e construiu um império bilionário onde entretenimento, pagamentos e vigilância convivem na mesma plataforma.

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O lado obscuro do maior império digital da China

“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger

🐧 O lado obscuro do maior império digital da China

Chinesa Tencent vai investir US$ 70 bilhões em "nova infraestrutura"
Tencent, uma das maiores empresas da China.

Peça para qualquer pessoa fora da China explicar o que a Tencent faz e muito provavelmente essa pessoa não saberá dizer exatamente todas as atividades da empresa. Sinceramente, nem eu que escrevo esse texto sabia por completo (vivendo e aprendendo).

O primeiro ponto que chama atenção, é que a Tencent já chegou a valer mais do que gigantes ocidentais como Meta e Samsung nos seus melhores momentos, e mesmo hoje, depois de perder boa parte desse valor em meio ao aperto regulatório chinês dos últimos anos, ainda é avaliada em algo perto de 520 bilhões de dólares, mais do que a Mastercard, por exemplo (506 bilhões).

Para efeito comparativo, no momento em que escrevemos essa edição, a Petrobras vale algo próximo de 125 bilhões de dólares e a Vale, 64 bilhões de dólares.

Enquanto o mascote da empresa é um pinguinzinho fofo, o comportamento corporativo lembra muito mais um polvo. Tentáculos espalhados por praticamente todo setor da economia, a maioria deles invisível para quem está de fora da China.

O produto que sustenta esse império se chama WeChat, e ele resolveu um problema que nenhuma big tech ocidental conseguiu resolver de verdade: o WeChat concentra praticamente tudo dentro de um único aplicativo.

Dos 1,4 bilhão de habitantes da China, a maioria passa em média quatro horas por dia dentro do app, mais tempo do que o usuário americano médio gasta somando todas as redes sociais que usa.

O WeChat é Facebook, PayPal, WhatsApp, Netflix, Spotify, Uber, Tinder e Amazon operando como uma única superfície. Pelo app, o usuário consegue pagar a conta de energia, chamar um motorista, marcar encontros amorosos, fazer compras e ainda conversar com a família.

Redes sociais mais populares na China.

O problema é que essa conveniência tem um preço que a maioria dos usuários nunca calculou de verdade onde uma única empresa concentra localização exata, histórico bancário completo e o conteúdo de cada mensagem, ligação e busca já feita por mais de um bilhão de pessoas.

E a linha entre onde a Tencent termina e onde o Partido Comunista Chinês começa é, na melhor das hipóteses, borrada. O governo chinês já confirmou publicamente que consegue acessar até conversas apagadas pelo usuário, sem necessidade de autorização.

Em um relatório sobre tratamento de dados em aplicativos de mensagem, a Amnesty International deu à Tencent a nota mais baixa entre todas as empresas avaliadas. No documento, é citada a ausência quase total de transparência sobre para onde os dados vão e admissão implícita de que o governo tem uma porta dos fundos para acessar mensagens supostamente criptografadas.

A origem da empresa, no entanto, é bem mais modesta do que o resultado final sugere. Ma Huateng, ou Pony Ma para os íntimos, fundador e CEO, é o oposto do arquétipo Musk-Bezos-Zuckerberg. Avesso aos holofotes, mesmo liderando uma empresa desse tamanho, Ma raramente concede entrevistas, não tem presença relevante em redes sociais e é praticamente irreconhecível fora da China.

Com a Universal Music, a Tencent amplia os seus tentáculos - NeoFeed
Ma Huateng, fundador e CEO da Tencent.

Ele começou copiando, sem pedir licença, o famoso programa pioneiro de mensagens instantâneas israelense ICQ, criando uma versão chinesa batizada de OICQ, depois renomeada para QQ por pressão legal. Foi esse movimento que colocou a Tencent no radar e a colocou de frente com o primeiro grande adversário de peso: a Microsoft.

A virada decisiva da empresa aconteceu no início dos anos 2000, em uma disputa direta contra o MSN da Microsoft pelo mercado chinês de mensagens instantâneas. Com uma fração dos recursos do rival, a Tencent venceu porque conseguia lançar uma funcionalidade nova em semanas, enquanto qualquer decisão do MSN levava meses.

Servidores locais mais rápidos e uma cultura de startup ágil fizeram o resto. Vencida essa guerra, o manual de expansão da empresa ficou definido para sempre: identificar um produto de sucesso em outro lugar, clonar, injetar o tráfego descomunal do QQ e depois do WeChat, e, se nada disso funcionar, simplesmente comprar o concorrente.

Décadas depois, esse manual transformou a Tencent na maior empresa de games do planeta, com uma divisão de jogos sozinha maior do que Nintendo e EA combinadas. Hoje, ela é dona de 100% da Riot Games, criadora de League of Legends, tem 40% da Epic Games, criadora de Fortnite, e participações na Ubisoft e Activision Blizzard.

No sistema financeiro, o WeChat Pay processa mais de um bilhão de transações por dia, mais do que Visa e Mastercard combinadas. Fora da China, a lista de investimentos passa por Reddit, Discord, Spotify, Snapchat, Tesla e Universal Music, entre centenas de outras empresas que a maioria dos usuários nem imagina ter alguma relação com Shenzhen.

Esse crescimento vertiginoso dentro da China só foi possível porque a Tencent operou por anos praticamente livre de fiscalização antitruste, podendo monopolizar setores inteiros e varrer concorrentes do mapa.

Em troca dessa liberdade, a empresa virou uma espécie de extensão operacional do estado. Durante os primeiros meses da pandemia, o governo usou o WeChat para atribuir códigos de cor que determinavam se uma pessoa podia sair de casa. A empresa também foi instruída a adaptar jogos aos valores do partido e a limitar, via reconhecimento facial, o tempo de jogo de menores de idade a 90 minutos por dia.

Fora da China, essa proximidade já custou caro em alguns casos. A Blizzard, parcialmente controlada pela Tencent, baniu um jogador profissional por declarar apoio ao movimento pró-democracia de Hong Kong durante uma transmissão ao vivo.

Em 2019, depois que Daryl Morey, dirigente do Houston Rockets tuitou apoio a Hong Kong, a Tencent simplesmente suspendeu a transmissão de jogos da NBA no país, e jogadores da liga passaram a fazer declarações públicas de afeto pela China para conter o dano comercial. Governos como Estados Unidos e Índia já classificaram o WeChat como ameaça à segurança nacional.

Tweet de Daryl Morey em 2019.

O que torna a história genuinamente intrigante é o parênteses mais recente: nos últimos anos, o próprio governo chinês passou a apertar o cerco sobre as gigantes de tecnologia do país, e a Tencent perdeu centenas de bilhões de dólares em valor de mercado nesse processo. Sim, o mesmo governo com quem ela tem laços tão próximos foi responsável por destruir boa parte do seu valor.

O recado por trás da queda é que nenhuma empresa, por maior que seja sua utilidade estratégica, está acima do controle do partido. A resposta da Tencent foi se aproximar ainda mais do governo, inclusive lançando jogos concebidos abertamente para agradar autoridades, em um movimento que soa menos como estratégia de produto e mais como prova de lealdade.

A Tencent é ao mesmo tempo uma das maiores histórias de sucesso empresarial das últimas duas décadas, de quase falência a um dos negócios mais valiosos do mundo, e o experimento mais avançado já feito sobre o que acontece quando vigilância, censura e conveniência digital são fundidas em uma única plataforma usada diariamente por mais de um bilhão de pessoas.


📊 R$ 5,7 trilhões em disputa: o preço dos dados bagunçados

Existe uma disputa de R$ 5,7 trilhões acontecendo agora no Brasil, o equivalente a quase 75% de tudo o que o país produz em um ano, travada entre empresas e o Fisco.

O mais curioso é que boa parte desses conflitos não nasceu de má-fé, mas de algo muito mais banal: dados bagunçados.

Enquanto as empresas brasileiras gastam até 1.501 horas por ano só para apurar e pagar impostos, as informações essenciais seguem espalhadas em sistemas que não conversam entre si.

Agora, com a reforma tributária substituindo o sistema inteiro e digitalizando tudo, organizar esses dados deixou de ser opção e virou questão de sobrevivência.

No episódio dessa semana do Curioso Explica, explicamos por que dados viraram o novo petróleo, e como a BMTax juntamente com a Qualiserve e a Microsoft, reconstruíram sua base inteira do zero para transformar 45 terabytes de caos em inteligência.

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