O chocolate de 1891

Na edição de hoje: André Meyer: o influente banqueiro de Wall Street; Arthur Blank: do Home Depot ao Atlanta Falcons e Neugebauer: O chocolate de 1891.

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O chocolate de 1891

“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger

🏦 André Meyer: o influente banqueiro de Wall Street

André Meyer, ex-banqueiro do Lazard.

André Meyer nunca deu uma entrevista, nunca apareceu em revistas e viveu seus últimos anos em um quarto de hotel em Nova York com a mala sempre pronta. É provável que você nunca tenha ouvido o nome dele, mas Meyer é considerado um dos banqueiros mais poderosos de Wall Street no século XX.

Nascido em 1898 em Paris, abandonou a escola aos 16 para trabalhar como mensageiro na Bolsa de Paris. A escassez de mão de obra da Primeira Guerra abriu as portas para seu ingresso em um banco pequeno, o que posteriormente chamou a atenção do Lazard Frères e, em 1925, aos 27 anos, foi contratado. Poucos anos depois, virou sócio da instituição.

Nos anos 1920 e 1930, construiu reputação rapidamente em Paris. Ajudou a salvar a Citroën da liquidação, entrou no conselho da montadora em crise e reestruturou suas operações. Meyer também teve participação na SOVAC, a primeira empresa de financiamento de automóveis da França, introduzindo o parcelamento em um mercado que não conhecia crédito ao consumidor.

Com a ocupação nazista, se mudou para Nova York. Em 1944, o chairman do Lazard voltou à França e deixou Meyer no comando das operações americanas, posição que ocuparia pelo resto da vida.

Seu maior cliente era a ITT Inc., fabricante multinacional americana de componentes de engenharia de alta tecnologia para os mercados de transporte, industrial e energia. Ao longo de três anos, 48 aquisições com assessoria do Lazard. Em um dos negócios mais emblemáticos, Meyer comprou a Avis Rent a Car por US$ 7 milhões e a revendeu à ITT por US$ 52 milhões. Na época, o Lazard se tornou o maior escritório de M&A dos Estados Unidos.

Paralelo aos negócios, construiu uma rede que atualmente chamaríamos de um “bom networking”. Meyer foi conselheiro da família Kennedy, consultor do ex-presidente Lyndon Johnson e de Katharine Graham do Washington Post. Não usava esses vínculos como publicidade, mas como informação e influência. Políticos e CEOs ligavam antes das decisões mais importantes. Ele atendia, aconselhava e não comentava com mais ninguém.

Meyer faleceu em setembro de 1979 em uma clínica em Lausanne, com a mala ainda arrumada no Carlyle Hotel. Na época, sua fortuna foi estimada entre US$ 250 milhões e US$ 500 milhões. Conhecido como “O Picasso do Setor Bancário”, Meyer deixou sua marca no mercado de M&A americano com técnicas utilizadas até os dias de hoje.


🏆 Arthur Blank: do Home Depot ao Atlanta Falcons

Arthur Blank, proprietário do Home Depot.

Você já deve ter notado que o editor adora esportes e conhecer quem são os proprietários dos clubes e ligas mais importantes do mundo, certo? E o personagem de hoje conecta dois mundos que raramente aparecem juntos: o maior varejista de materiais de construção do planeta e um time da NFL.

Arthur Blank nasceu em 1942 em Nova York, filho de um farmacêutico judeu. Concluiu sua formação em administração no Babson College em 1963 e foi trabalhar como contador. Em 1972, já era presidente de uma rede de farmácias da Daylin Corporation, experiência que o ensinou a operar varejo em escala. Em 1978, foi demitido da Daylin junto com o colega Bernie Marcus. Contudo, foi ali que surgiu a oportunidade para apostarem em uma ideia.

A ideia era o Home Depot, uma loja de materiais de construção no formato warehouse, com produtos em grande volume, preços baixos e vendedores treinados para orientar o cliente. As duas primeiras lojas abriram em Atlanta em junho de 1978. Em 2001, quando Blank se aposentou como co-chairman, o Home Depot era a maior rede de home improvement do mundo, com centenas de bilhões em valor de mercado.

Em fevereiro de 2002, Blank comprou o Atlanta Falcons da NFL por US$ 545 milhões. O time havia passado 36 anos sem jamais ter duas temporadas consecutivas com saldo positivo de vitórias.

Blank chegou com a mesma lógica do varejo em profissionalizar a gestão, o investimento em infraestrutura e foco na experiência do cliente, neste caso o torcedor. Em 2017, inaugurou o Mercedes-Benz Stadium, considerado um dos estádios mais modernos do mundo, sede do Super Bowl de 2019. O valor da franquia, estimado em US$ 545 milhões na compra, superava US$ 6 bilhões em 2024.

O portfólio foi crescendo além do futebol americano. Em 2017, fundou o Atlanta United FC, clube de futebol que no primeiro ano de existência quebrou o recorde de média de público da MLS com mais de 48 mil torcedores por jogo, e venceu a MLS Cup em 2018. Além dos times, o grupo inclui a rede PGA Tour Superstore, a maior varejista de golfe dos Estados Unidos, três ranchos de luxo em Montana e o próprio Mercedes-Benz Stadium como negócio independente.

Arthur Blank faz parte da legião de empresários que investiram pesado no esporte após uma carreira de sucesso em suas respectivas empresas. A diferença é que, enquanto a maioria compra um time para ter um troféu na sala, Blank chegou em Atlanta com um plano de negócios. O esporte foi apenas o próximo passo onde ele decidiu aplicar o que já sabia fazer.


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🍫 Neugebauer: O chocolate de 1891

Ricardo Vontobel, presidente da Neugebauer.

O alemão Franz Neugebauer chegou a Porto Alegre em 1887 como técnico em confeitaria e percebeu que não havia chocolate de qualidade por aqui. Incrédulo com a situação, escreveu para o seu irmão Max e seu amigo Fritz Gerhardt, que ainda estavam na Alemanha, que haveria um boa oportunidade de negócios pelo Sul do Brasil.

Em 17 de setembro de 1891, Franz, Max e o amigo Fritz Gerhardt fundaram a Neugebauer Irmãos & Gerhardt em um prédio de madeira no bairro Navegantes. Nascia a primeira e mais antiga fábrica de chocolates do Brasil ainda em atividade, 22 anos antes da Lacta e 32 anos antes da Garoto.

Em 1903, Franz viajou à Alemanha para comprar equipamentos de fabricação de chocolate industrializado, tornando a Neugebauer a primeira empresa a produzir chocolate em escala industrial no país. Em 1913, a fábrica já operava com 30 máquinas, 10 caldeiras, seções de cartonagem e funilaria, produzindo cerca de 2.000 tipos de produtos, premiados em exposições nos Estados Unidos, Milão e Rio de Janeiro.

Nos anos seguintes, a empresa lançou produtos populares no mercado até hoje, como o Chocolate Refeição em 1925, seguido pelo Noig em 1954, a popular Bala Mocinho em 1955 e o icônico bombom Amor Carioca em 1958. Na década de 70, a marca apresentou o clássico Stikadinho (1974) e o bombom Love Me, enquanto os anos 80 trouxeram o sucesso dos confeitos Bibs.

Antiga fábrica da empresa em Porto Alegre (RS).

A família Neugebauer manteve o controle por quase um século, até 1982, quando vendeu a empresa para o Grupo Fenícia. Começou aí uma sequência de trocas de dono que definiria o destino do negócio. Em 2002, foi adquirida pela Florestal Alimentos, de Lajeado. Em 2007, lançou a marca 1891 de chocolates premium, em homenagem ao ano de fundação. Em 2010, o Grupo Vonpar, então engarrafador da Coca-Cola no Sul, comprou a Neugebauer e a integrou à Vonpar Alimentos, junto com a Mu-Mu (doce de leite) e a Wallerius (Beija Coração e balas Mocinho).

Em 2013, inaugurou uma das fábricas de chocolate mais modernas da América Latina, em Arroio do Meio, no Rio Grande do Sul, com capacidade de produzir 74 mil quilos de chocolate por dia e 20 mil quilos de doce de leite.

Neugebauer – Wikipédia, a enciclopédia livre
Fábrica atual em Arroio do Meio (RS).

Hoje, a empresa exporta para mais de 30 países, mas ainda concentra 65% das vendas no Sul do Brasil, com 3,4% de participação no mercado nacional.

A fábrica de chocolates mais antiga do Brasil ainda disputa espaço nas prateleiras dominadas por Nestlé, Lacta e Garoto. Mas ao longo dos seus 135 anos, a o que fascina na história da Neugebauer é que ela sobreviveu a diversas crises e quatro trocas de donos sem perder a sua essência.


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