O boom dos ETFs no Brasil
Na edição de hoje: O capitalismo além do Vale do Silício; O império do varejo que ninguém vê e O boom dos ETFs no Brasil.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
💰 O capitalismo além do Vale do Silício

Nos últimos anos, quando se fala em grandes fortunas, a conversa quase sempre acaba nas gigantes da tecnologia. Basta abrir qualquer portal de notícias para encontrar nomes ligados a plataformas digitais, inteligência artificial e softwares dominando as manchetes.
No entanto, se a gente afastar um pouco a câmera e observar com mais calma, surge um cenário bem diferente e curioso. Uma fatia gigantesca das maiores fortunas do planeta continua sendo construída em setores que muitos consideram “tradicionais”, mas que se mostram mais sólidos do que nunca.
Entre os nomes mais ricos do planeta convivem empreendedores da tecnologia e empresários cujos impérios nasceram em negócios físicos, consumo e ativos tangíveis. O luxo, o varejo e as grandes holdings de investimento continuam sendo máquinas de geração de riqueza em grande escala, mesmo em uma era dominada pelo discurso da inovação digital.
Um dos exemplos mais claros dessa realidade é o império construído por Bernard Arnault. À frente do conglomerado LVMH, Arnault consolidou marcas como Louis Vuitton, Dior e Moët & Chandon em um dos maiores grupos de luxo do mundo. O modelo de crescimento combinou aquisições, controle rigoroso de marca e expansão internacional, especialmente em mercados como Estados Unidos e Ásia.
No campo dos investimentos, o caminho de Warren Buffett reforça essa lógica. Enquanto muitos correm atrás da próxima startup “unicórnio”, Buffett passou décadas fortalecendo a Berkshire Hathaway com apostas em setores que fazem o mundo girar na prática: seguros, energia, transporte ferroviário e bens de consumo.
O varejo também continua sendo uma das grandes máquinas de acumulação de capital. A família Walton, herdeira do império Walmart, construiu sua fortuna apoiada em escala, logística eficiente e preços baixos. Em paralelo, a expansão para setores como serviços financeiros e imóveis reforçou ainda mais a base patrimonial do grupo.
No setor de moda, Amancio Ortega seguiu um caminho diferente, mas igualmente poderoso. Fundador da Inditex, ele transformou a indústria têxtil ao integrar design, produção e distribuição em um modelo de resposta rápida ao mercado. Ao mesmo tempo, parte significativa de sua fortuna foi direcionada para imóveis premium em grandes centros, criando uma diversificação que vai muito além do varejo de roupas.
O que esses casos têm em comum é um padrão claro. Ao invés de depender exclusivamente do crescimento acelerado financiado por capital de risco, essas fortunas se apoiam em ativos tangíveis, marcas fortes e geração constante de caixa.
No fim das contas, esses exemplos mostram que o capitalismo, por mais que pareça flutuar na nuvem, ainda está muito bem ancorado no chão. Consumo, bens físicos e operações bem executadas continuam sendo a base mais confiável para construir patrimônios que atravessam gerações.

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🛒 O império do varejo que ninguém vê

Seguindo na linha de empresários de mercados tradicionais, poucos casos no mundo são tão fascinantes quanto o de Dieter Schwarz. Em março de 2026, a Forbes o coloca na 29ª posição entre as pessoas mais ricas do planeta, com um patrimônio de US$ 67,2 bilhões. Mas o mais intrigante não é o tamanho da fortuna: é o fato de que quase ninguém sabe quem ele é.
A história começa em 1930, quando Josef Schwarz, pai de Dieter, entrou como sócio de uma pequena distribuidora de frutas no sul da Alemanha, a Lidl & Co. O negócio foi destruído durante a Segunda Guerra Mundial e reconstruído do zero ao longo dos anos seguintes.
Dieter nasceu em 1939 em Heilbronn e cresceu dentro do negócio da família. Inspirado pelo modelo de desconto dos irmãos Albrecht, criadores do Aldi (já contamos essa história aqui), ele abriu a primeira loja Lidl em Ludwigshafen em 1973.
O nome “Lidl” não foi uma escolha óbvia: incapaz de usar o próprio sobrenome, que em alemão formaria “Schwarzmarkt”, ou seja, mercado negro, ele comprou os direitos do nome de um professor aposentado chamado Ludwig Lidl por apenas mil marcos alemães.
Após a morte do pai em 1977, Dieter assumiu o comando com apenas 30 lojas Lidl em operação. Em 1984, lançou a rede Kaufland, um hipermercado que complementava o modelo de desconto do Lidl com uma variedade maior de produtos. A lógica era simples, mas eficaz. Operar em dois formatos, dois públicos, mas uma mesma obsessão por eficiência e preço baixo.
A expansão internacional veio em seguida. Na década de 1990, o Schwarz Group já dominava o varejo europeu, com lojas se espalhando pela França, Itália e Polônia. Em 2017, o Lidl desembarcou nos Estados Unidos. Hoje, são cerca de 12 mil lojas espalhadas pela Europa e América do Norte, tornando o Lidl a maior rede de desconto do mundo em número de unidades.
O Schwarz Group emprega hoje 595 mil pessoas e opera em 32 países. Além do varejo, o grupo avançou para gestão de resíduos com a PreZero, produção própria de alimentos e, mais recentemente, tecnologia com o lançamento da divisão Schwarz Digits, que oferece serviços de computação em nuvem sob a marca STACKIT, uma alternativa europeia às big techs americanas.
Mas talvez o traço mais singular de Dieter Schwarz seja o que ele escolheu não fazer. Ele nunca deu entrevistas, evita qualquer exposição pública e existem poucas fotos conhecidas dele disponíveis na imprensa (deu um trabalhão para encontrar a imagem do texto).
Desde 1999, transferiu 99,9% das ações do Lidl e do Kaufland para uma fundação filantrópica, a Dieter Schwarz Stiftung, garantindo a independência de longo prazo do grupo. Ele abre mão do controle formal, mas mantém o veto sobre as decisões estratégicas. A fundação financia escolas, universidades e centros de pesquisa, com foco especial em sua cidade natal, Heilbronn.
Se o Vale do Silício celebra fundadores que aparecem em capas de revista, Dieter Schwarz é o contraponto perfeito. Construiu um dos maiores impérios do varejo com frugalidade e consistência e hoje fatura mais de US$ 200 bilhões.
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📈 O boom dos ETFs no Brasil

O mercado de ETFs no Brasil viveu em 2025 um de seus capítulos mais marcantes desde que o primeiro fundo de índice foi lançado no país. O que vimos foi um salto impressionante: o patrimônio total dos ETFs na B3 superou a barreira de R$ 90 bilhões, uma alta de 70% em relação aos R$ 54 bilhões de 2024.
Um dos fatores que impulsionou o crescimento do mercado de fundos de índice no Brasil em 2025 foi o lançamento de 67 novos ETFs na B3, que superou a marca de 170 produtos ativos ao final de dezembro. A expansão foi impulsionada por diversos lançamentos em renda fixa e variável.
Consoante a isso, o crescimento foi acompanhado por uma adesão em massa de novos investidores, onde a base saltou de 713 mil para 891 mil pessoas, mostrando que o brasileiro está aderindo às estratégias passivas.
Essa mudança de comportamento reflete uma combinação de custos mais baixos, maior oferta e uma compreensão mais clara sobre a eficiência de seguir um índice. A estratégia, impulsionada pelo lendário investidor John Bogle, fundador da Vanguard, ganha um terreno fértil no Brasil à medida que o investidor percebe que não precisa tentar “vencer o mercado” o tempo todo para ter sucesso.
Entre 2022 e 2025, gestores e bolsas focaram em resolver o chamado “problema de oferta”, diversificando a prateleira com ETFs de renda fixa, internacionais e temáticos. Isso abriu portas para quem antes ficava restrito às ações locais ou aos fundos tradicionais, permitindo uma alocação global e sofisticada com apenas alguns cliques.
Uma das tendências mais interessantes de 2025 foi o avanço dos ETFs de renda fixa. Eles atraíram aquele investidor mais conservador, acostumado com a segurança das aplicações tradicionais, mas que descobriu nos fundos de índice uma forma prática de acessar crédito privado, juros e estratégias híbridas.
Embora o crescimento seja acelerado, o mercado brasileiro ainda é pequeno perto dos gigantes desenvolvidos. Por aqui, os ETFs representam menos de 1% do patrimônio total da indústria de fundos no país. No entanto, para quem olha o copo meio cheio, esse número é a prova do enorme espaço que ainda existe para expansão nos próximos anos.
Olhando para 2026, a expectativa é que esse ciclo de crescimento continue, mas com uma cara de amadurecimento, segundo Danilo Gabriel da XP Asset. O mercado deve se tornar mais competitivo entre as gestoras, trazendo produtos ainda mais refinados e uma integração maior com ativos globais, commodities e até criptoativos.
“Quando eu olho para 2026, imagino continuidade desse ciclo de atenção. Estamos falando muito do produto, potencialmente vão ter novos entrantes, novos produtos, e consolidação dos produtos que foram lançados em 2025”.
Se 2025 foi o ponto de inflexão, 2026 tende a ser o ano em que os ETFs deixam de ser uma alternativa de nicho para se tornarem o alicerce estrutural das carteiras de investimento no Brasil.

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