Marjorie Post: da General Foods a Mar-a-Lago
Muito além de Mar-a-Lago: como Marjorie Merriweather Post revolucionou os alimentos congelados e construiu o império que décadas depois daria origem à Kraft Heinz.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
🍽️ Marjorie Post: da General Foods a Mar-a-Lago

Essa é mais uma daquelas histórias que contamos aqui na newsletter: amplamente desconhecida, mas ao mesmo tempo impossível de ignorar quando você a conhece. Te garanto, caro leitor, essa história me deixou de queixo caído.
Marjorie Merriweather Post foi a mulher mais rica dos Estados Unidos por boa parte do século XX, construiu um dos maiores conglomerados alimentares da história americana e morreu deixando uma mansão para o governo. O nome dela você provavelmente nunca ouviu. A mansão, você certamente conhece.
Com patrimônio estimado em US$ 250 milhões no auge, equivalente a mais de US$ 1 bilhão em valores corrigidos, ela presidiu a criação de um dos maiores conglomerados alimentares da história americana.
O ponto de partida foi uma herança. Em 1914, quando tinha 27 anos, seu pai Charles William Post, fundador da Postum Cereal Company, tirou a própria vida em sua propriedade na Califórnia.

Marjorie herdou US$ 20 milhões em dinheiro e ativos, equivalente a cerca de US$ 500 milhões em valores atuais, mais o controle da empresa. Na época, a Postum possuía as marcas Grape-Nuts (o primeiro cereal matinal seco feito com trigo e cevada), Post Toasties (cereal de flocos de milho) e a Postum (bebida quente de cereais torrados criada como um substituto saudável para o café).
Naquela altura, Marjorie já estava bem envolvida nos negócios da família desde a infância. No entanto, a tragédia antecipou os seus planos de assumir o comando da companhia.
O que veio depois foi pura estratégia. Com seu segundo marido, o financista Edward Francis Hutton, Marjorie transformou a Postum em uma máquina de aquisições.
A marca Jell-O de gelatinas, pudins e tortas de creme, foi comprada em 1925. Logo depois, a Maxwell House Coffee, de cafés, entrou no portfólio em 1928.
A compra mais reveladora, porém, veio de um almoço em um iate. Durante um passeio no litoral de Massachusetts, o cozinheiro de bordo serviu um ganso que havia sido congelado seis meses antes com uma qualidade surpreendente.
O segredo era de um inventor chamado Clarence Birdseye, que havia desenvolvido um processo de congelamento ultrarrápido que preservava textura e sabor.

Hutton, por sua vez, era cético: afinal, os supermercados precisariam de freezers e os consumidores não estavam acostumados com alimentos congelados. Contudo, Marjorie ignorou as objeções e comprou a General Seafood Corporation, de Birdseye, por US$ 22 milhões, em 1929, rebatizando o grupo como General Foods Corporation.
Nos anos seguintes, a empresa investiu no desenvolvimento de freezers próprios para lojas, já que os alimentos congelados exigiam refrigeração constante nos pontos de venda, algo que ajudou a impulsionar a expansão dos supermercados de autoatendimento a partir do fim da década de 1930.
Ao longo das décadas seguintes, a General Foods seguiu crescendo por meio de aquisições importantes, incorporando marcas como Kool-Aid em 1953, Burger Chef em 1968 (revendida em 1981), Oscar Mayer em 1981 e Entenmann’s em 1982. Em 1957, William Mitchell, químico da empresa, desenvolveu o Tang, refresco em pó com sabor de frutas.
O período de expansão se encerrou em 1985, quando a companhia foi comprada pela Philip Morris por US$ 5,6 bilhões, uma das maiores aquisições da história em um setor fora do ramo petrolífero até então.
O recorde seria quebrado três anos depois quando a mesma Philip Morris comprou a Kraft por US$ 12,9 bilhões e fundiu as duas, criando a Kraft Foods.
O que Marjorie havia construído está, até hoje, nas prateleiras de supermercados do mundo inteiro através da The Kraft Heinz Company, que nasceu em 2015 da fusão entre a H.J. Heinz Holding Corporation e a Kraft Foods Group e se tornou a quinta maior empresa de alimentos e bebidas do mundo.

O capítulo de Mar-a-Lago é secundário na história dela, mas é o único que a maioria das pessoas conhece. A propriedade em Palm Beach foi construída entre 1923 e 1927, com 126 quartos, 17 acres entre o oceano e a lagoa e uma equipe permanente de 60 funcionários.
Marjorie a usou como plataforma social por décadas, hospedando presidentes, diplomatas e industriais com a mesma metodologia que aplicava à General Foods: registros detalhados de quem havia sido convidado para qual jantar, o que foi servido e quem sentou ao lado de quem.

Quando faleceu em 1973, deixou a propriedade para o governo americano com a intenção de que servisse como residência oficial para presidentes na Flórida. O governo recusou, alegando um alto custo de manutenção. Em 1985, Donald Trump comprou a propriedade por cerca de US$ 10 milhões e transformou em clube privado.
Em 1973, o patrimônio estimado de Marjorie era de US$ 200 milhões, equivalente a US$ 1,5 bilhão hoje. A empresa que ela construiu foi vendida por US$ 5,6 bilhões doze anos após a sua morte. A mansão que ela construiu é hoje um resort de luxo e marco histórico nacional. E a tecnologia de congelamento de alimentos que ela financiou quando ninguém acreditava está na geladeira de praticamente todo ser humano no planeta.
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