Gastão Vidigal: ninguém compra o meu banco

Na edição de hoje: Julio Lobo: o 'rei do açúcar' antes da Revolução Cubana; A jogada genial do Burger King que ninguém esperava e Gastão Vidigal: ninguém compra o meu banco.

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Gastão Vidigal: ninguém compra o meu banco

“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger

🍬 Julio Lobo: o 'rei do açúcar' antes da Revolução Cubana

Julio Lobo, empresário venezuelano-cubano.

Julio Lobo foi o homem mais rico de Cuba antes da Revolução de 1959. Mas, poucos sabem quem ele foi. Menos ainda sabem como ele perdeu tudo. Acompanhe conosco e a história do rei do açúcar cubano.

Nascido em Caracas em 1898, de família judaica, ele chegou a Cuba aos dois anos de idade e foi criado dentro de um ambiente de negócios. Mas o que o pai construiu, Julio transformou em algo sem precedentes na ilha.

Sua trajetória empreendedora começou aos 21 anos, logo após voltar dos estudos nos Estados Unidos, quando fechou o negócio mais lucrativo de açúcar até então: um contrato de US$ 6 milhões com a empresa britânica Tate and Lyle. Na época, o açúcar de Cuba era o equivalente ao petróleo da Arábia Saudita nos dias atuais.

Nas décadas seguintes, seu império cresceu de forma impressionante. Lobo chegou a controlar 14 usinas de açúcar e 405 mil hectares de terra em Cuba, uma ilha cuja área total plantada não ultrapassa 700 mil hectares. Quase quatro dos seis milhões de toneladas de açúcar produzidos anualmente no país saíam de suas propriedades. Com as receitas do produto, expandiu para bancos, seguradoras, companhias aéreas e transporte naval. Sua fortuna, em 1959, era estimada em US$ 200 milhões (cerca de US$ 2,0 bilhões atualmente).

Lobo comprava ativamente usinas que pertenciam a americanos, convicto de que os cubanos deveriam ter o controle de seu próprio país. Essa postura contradiz o retrato caricato que a história costuma pintar da elite pré-revolucionária.

Mas a história tem ironia. Em 11 de outubro de 1960, Lobo foi convocado às pressas, no meio da madrugada, ao Banco Nacional de Cuba. Do outro lado da mesa estava Ernesto Che Guevara, recém nomeado dirigente da instituição.

O encontro entre os dois resumia a virada histórica que se consolidava. De um lado, o maior capitalista do país caribenho. Do outro, o rosto da revolução que havia chegado para tomar tudo que ele havia construído. Mesmo assim, Guevara ofereceu a chance de permanecer em Cuba como dirigente de uma estatal, mas Lobo recusou.

Na manhã seguinte, enquanto ele embarcava com um salvo-conduto para Nova York, seu império começou a desmoronar. O governo cubano confiscou as usinas, os bancos, as coleções de arte com obras de Michelangelo e Da Vinci, os documentos históricos sobre o açúcar e até relíquias pessoais de Napoleão, personagem pelo qual Lobo nutria uma obsessão particular. Boa parte desse acervo ainda está espalhada pelos museus de Havana.

No exílio, tentou recomeçar. Atuou na bolsa de Nova York, refez uma fortuna e a perdeu novamente, desta vez gastando com viagens e romances com estrelas de Hollywood. No fim, Lobo se mudou para a Espanha, onde viveu seus últimos anos em situação modesta. Morreu em Madri em 30 de janeiro de 1983, aos 85 anos.


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🍔 A jogada genial do Burger King que ninguém esperava

Jogadores do Stevenage FC.

Algumas campanhas são tão simples e brilhantes que dão aquela sensação imediata de “como ninguém pensou nisso antes?”. A ação do Burger King com o Stevenage FC entra exatamente nessa categoria e nasce de uma ideia que soa quase absurda. E se, ao invés de investir em um gigante do futebol, a marca escolhesse patrocinar um time extremamente desconhecido?

A resposta veio em 2020, quando a marca assinou contrato com o clube praticamente desconhecido que disputava a quarta divisão inglesa. O raciocínio da agência DAVID foi estruturado diante do licenciamento do clube no FIFA 20, o maior jogo de futebol do mundo.

Patrocinar a camisa do clube significava colocar o logo do Burger King dentro do jogo, acessível a milhões de jogadores, sem pagar nada próximo ao que custaria uma parceria com Barcelona, PSG ou Manchester United.

Mas o plano não parava no patrocínio. A segunda etapa foi a mais inteligente, onde a campanha convidava os jogadores a escolherem o Stevenage no modo carreira, montarem elencos com astros como Messi e Neymar e compartilharem seus gols e jogadas nas redes sociais com a hashtag da ação. Desse modo, a recompensa eram cupons e produtos do Burger King (quem não quer um lanche no 0800, não é mesmo?).

Mas, o que aconteceu a seguir nenhum planejamento de mídia tradicional conseguiria comprar. O Stevenage, até então irrelevante fora da Inglaterra, virou o time mais jogado do FIFA por um bom período. Streams, vídeos, memes e postagens espalharam a marca de forma orgânica por todos os cantos do mundo, com o logo do Burger King estampado na camisa de um time de quarta divisão protagonizando partidas ao lado das maiores estrelas do futebol virtual.

O mecanismo por trás da ideia era a exploração de uma brecha que ninguém havia notado antes, onde os contratos de licenciamento dos jogos de futebol não discriminam entre grandes e pequenos clubes. Qualquer time licenciado aparece no jogo com sua camisa oficial. A diferença é que os grandes custam fortunas para patrocinar, enquanto um clube do interior da Inglaterra estava, na prática, disponível a preço de banana.

Há também uma camada cultural relevante nessa história. O FIFA é um dos jogos mais consumidos do planeta, especialmente entre jovens de 16 a 30 anos, exatamente o público que o Burger King quer conquistar. Ao entrar no jogo pelo Stevenage, a marca não só economizou em mídia, mas falou a língua de uma geração que passa horas no controle e reconhece autenticidade quando vê.

O resultado formal não podia ser melhor. A campanha levou três Grand Prix no Cannes Lions 2021, nas categorias Direct, Social & Influencer e Brand Experience & Activation, sendo a mais premiada daquele ano.

Mas o impacto mais duradouro foi outro. A campanha mudou a forma como a indústria enxerga os jogos eletrônicos como espaço de mídia. Antes do Stevenage Challenge, games eram tratados como canal secundário. Depois dele, marcas do mundo inteiro começaram a olhar para dentro dos jogos com outros olhos, procurando brechas e mecânicas que pudessem ser transformadas em experiências de marca.


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🏦 Gastão Vidigal: ninguém compra o meu banco

Gastão Eduardo de Bueno Vidigal.

Gastão Vidigal nunca foi um nome de manchete. Mas foi dele, e depois de seu filho, que saiu uma das histórias mais reveladoras sobre poder, teimosia e identidade no capitalismo brasileiro. A história da construção, e da perda, do Banco Mercantil de São Paulo.

A história começa com Gastão Vidigal pai. Nascido em São Paulo em 1889, formado em direito pela USP em 1908, ele percorreu os bastidores da economia paulista antes de fundar, em 1938, o Banco Mercantil de São Paulo (não confunda com o Banco Mercantil do Brasil).

Vidigal não era um estreante no mundo financeiro. Já havia passado pela diretoria do Banco de São Paulo, do Banco do Estado de São Paulo e ocupado a Secretaria da Fazenda paulista. O Mercantil nasceu como extensão natural de um homem que entendia sobre dinheiro, política e poder como dimensões de um mesmo projeto.

Quando Gastão pai morreu em 1950, seu filho, Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, tinha pouco mais de 30 anos e já trabalhava no banco desde os 21, dividindo o tempo entre o balcão e as aulas na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Assumiu a presidência do conselho e, em 1962, tomou o comando executivo da instituição. Sob sua direção, o Mercantil chegou a ser um dos dez maiores bancos privados do Brasil, com mais de 250 agências e cerca de um milhão de clientes.

O estilo do doutor Gastão, como era chamado no setor financeiro, não deixava dúvida sobre quem mandava. Centralizador e personalista, ele acompanhava cada detalhe dos negócios do banco e de suas empresas coligadas, entre elas a Finasa, braço financeiro que se tornaria um dos ativos mais cobiçados do grupo.

No entanto, a partir dos anos 1990, o Mercantil passou a acumular poucos ativos e uma carteira de crédito estreita. O banco estava capitalizado, mas parado. Em 2000, o Banco Central comunicou ao doutor Gastão que era necessário injetar mais capital ou encontrar um sócio.

Começaram então as negociações com o Citibank e o BBVA, mas Vidigal sabotava os acordos com a mesma mão firme com que havia construído o banco. Interrompia negociações avançadas e recusava qualquer proposta que implicasse perda de controle.

Vidigal filho morreu em agosto de 2001, aos 82 anos, sem assinar a venda do banco que construiu durante 60 anos. No fim, em 2002 o banco foi vendido ao Bradesco por R$ 1,37 bilhão em uma operação que envolveu 220 agências e aumentou em 8,24% os ativos do Bradesco.


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