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# Como as mulas ajudaram a construir o Brasil
- URL: https://www.curiosomercado.com/como-as-mulas-ajudaram-a-construir-o-brasil/
- Published: 2026-11-06T18:26:32.000Z
- Updated: 2026-11-06T18:45:22.000Z
- Description: Antes das ferrovias, boa parte da carga do Brasil andava no lombo de mulas criadas no Sul e vendidas em Sorocaba.
- Author: Matheus Ramos
- Tags: Brasil, Histórias, Curiosidades, Mercado Financeiro

Recentemente, enquanto escrevia o roteiro de um episódio do Curioso Explica sobre Sorocaba, no interior Paulista, acabei encontrando alguns artigos, no mínimo, curiosos (pelo menos para mim, que nunca fui bom aluno em história). Eles tratavam do mercado de animais de carga no centro-sul do Brasil Imperial, em especial o mercado de mulas.

Até a chegada das primeiras ferrovias por aqui, boa parte da economia brasileira dependia das mulas para o transporte. Isso porque, no século XVIII, poucas estradas tinham sido construídas no país, e em muitas regiões usar uma carroça puxada por cavalo, por exemplo, era inviável.

Coube às tropas da simpática mula, portanto, levar comida e ferramentas para as minas de ouro em Minas Gerais e, no século seguinte, descer a serra com o café de São Paulo até o porto de Santos.

![Gravura de Rugendas com viajantes, mulas e carro de boi perto de São João del-Rei](https://storage.ghost.io/c/00/09/00098829-a5af-4bae-8a06-92eb3cfad231/content/images/2026/10/02-rugendas-matosinhos.jpg)

Viajantes, mulas e um carro de boi na estrada de Matosinhos, perto de São João del-Rei (MG), em gravura de Johann Moritz Rugendas dos anos 1820\. Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A escolha do animal se explica por uma característica, até então menosprezada pela minha ignorância, de combinar um porte atlético e muito resistente com boa destreza diante de obstáculos. O casco da mula é mais reto, duro e elástico que o do cavalo, e ela come menos para fazer o mesmo trabalho. A fama de "teimosa" vem justamente do instinto que ela possui de "travar" e avaliar o perigo antes de seguir em frente.

> A mula nasce do cruzamento de um jumento macho com uma égua, e por isso reúne qualidades que a colocam à frente de outros animais de carga. Essa origem, somada ao fato de que ela praticamente não consegue se reproduzir, acabou dando espaço para uma *atividade* econômica especializada na criação e no comércio de muares.

Esse assunto, um pouco aleatório, entrou na minha pesquisa porque era em Sorocaba que as tropas de mulas eram vendidas. A cidade tinha a única ponte grande sobre o rio Sorocaba para quem vinha do Sul, e na cabeceira dela ficava um posto de registro, onde o governo cobrava imposto sobre os animais.

A criação ficava nas estâncias do Rio Grande do Sul e da região do Prata, terras de campo aberto e de muitas éguas. Os compradores eram os tropeiros, homens de todas as condições sociais, que iam de operários e lavradores com algum dinheiro guardado a barões que negociavam alto.

![Aquarela de Debret com um escravizado conduzindo uma tropa de mulas](https://storage.ghost.io/c/00/09/00098829-a5af-4bae-8a06-92eb3cfad231/content/images/2026/10/03-debret-tropa-rio-grande.jpg)

Um escravizado conduz uma tropa de mulas na província do Rio Grande, em aquarela de Jean-Baptiste Debret dos anos 1820\. Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

As mulas percorriam mais de mil quilômetros, em dez a doze meses de viagem, até chegar a Sorocaba. No caminho, andavam soltas, em grupos de 500 a 600 animais, atrás da madrinha (normalmente uma égua mansa com um sino pendurado no pescoço, que o grupo seguia aonde quer que fosse), e paravam para engordar nas invernadas, os pastos onde a tropa descansava.

Em Sorocaba, as mulas eram revendidas a fazendeiros e outros tropeiros de carga de São Paulo, Minas e Rio, e dali em diante passavam a vida carregando a economia brasileira nas costas.

Como elas não se reproduziam entre si, quando morriam tinham de ser substituídas por outras compradas em Sorocaba. Por isso o ciclo recomeçava todo ano, e por isso o governador de São Paulo, Morgado de Mateus, proibiu no fim da década de 1760 a passagem de éguas e burros reprodutores pela capitania. Se os mineiros começassem a criar as próprias mulas, deixariam de comprar as que vinham do Sul, e isso não interessava aos criadores gaúchos, os comerciantes paulistas e, principalmente, a Coroa, que cobrava direitos em cada registro do caminho. 

**Isso fez do comércio de mulas um dos maiores negócios de São Paulo por mais de um século.** No ano fiscal de 1869-70, os animais vendidos em Sorocaba valiam quase três vezes tudo o que a província arrecadava de impostos.

A feira transformou a cidade em uma praça de comércio e de crédito, terreno onde mais tarde nasceria o maior polo têxtil do interior paulista.

Essa pesquisa sobre as mulas, o tipo de bizarrice que eu particularmente adoro, me lembrou de outra história, que tá no livro [*The House of Morgan*](https://amzn.to/4hKAlXt?ref=curiosomercado.com)que li para o roteiro do nosso [documentário sobre o JP Morgan](https://youtu.be/fp4yxB31SMQ?ref=curiosomercado.com) e não me arrependo de nenhuma das suas mais de 800 páginas.

No começo do século XIX, os grandes banqueiros ganhavam muito dinheiro com arbitragem, apoiados em vantagens de informação, já que as notícias demoravam a se espalhar. Em vários casos, essa vantagem estava em ter pombos-correio bem treinados, e os Rothschild mantinham uma revoada deles à disposição em Folkestone, no sul da Inglaterra.

O diplomata francês Talleyrand chegou a reclamar que o governo inglês ficava sabendo de tudo pelos Rothschild dez a doze horas antes de chegarem os despachos do próprio embaixador britânico em Paris.

![Retrato de Nathan Mayer Rothschild](https://storage.ghost.io/c/00/09/00098829-a5af-4bae-8a06-92eb3cfad231/content/images/2026/10/05-nathan-rothschild-oppenheim.jpg)

Nathan Mayer Rothschild, que comandava o banco da família em Londres, em retrato de Moritz Daniel Oppenheim. Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

O mais curioso (e eu também não fazia ideia disso) é que o pombo-correio só funciona porque a ave tem um instinto natural de retornar ao pombal onde foi criado. Por isso, quem precisava receber notícias de outra cidade tinha que levar os pombos até lá antes, e quando surgia uma novidade bastava prender a mensagem no animal e soltá-lo, que ele voava de volta pra origem.

Enfim, é isso que acontece quando um roteiro sobre Sorocaba vira uma tarde inteira lendo sobre mulas. Coisas que só a vida no Curioso Mercado proporciona.