A Nasdaq voltou ao radar das empresas brasileiras
Na edição de hoje: 7 Up e o sabor que o Brasil não comprou; O estranho caso da Skechers e A Nasdaq voltou ao radar das empresas brasileiras.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
🥤 7 Up e o sabor que o Brasil não comprou

Os leitores mais experientes de nossa newsletter com certeza vão lembrar do refrigerante 7 Up, ou Seven Up. A bebida de limão e lima parecia sempre tentar ocupar um lugar meio indefinido entre o refrigerante tradicional e algo um pouco mais leve, não é mesmo?
Apesar de sua curta passagem por terras brasileiras, sua história começou ao final dos anos 1920, quando Charles Leiper Grigg lançou a marca nos Estados Unidos com um nome nada discreto e uma proposta curiosa para a época.
Originalmente batizada de Bib-Label Lithiated Lemon-Lime Soda, a bebida carregava até lítio em sua fórmula, algo que na época era associado a efeitos terapêuticos e melhora de humor. O nome mudou, o lítio saiu da receita, mas a ideia central permaneceu.
Um refrigerante claro, menos agressivo, que se posicionava como alternativa aos colas escuros e mais intensos. Ao longo das décadas, o 7 Up construiu uma identidade própria, apostando no frescor, no sabor cítrico e em campanhas publicitárias que brincavam com a ideia de leveza e irreverência.
Essa proposta funcionou bem em vários mercados, especialmente nos Estados Unidos e em partes da Europa. Mas quando chegou ao Brasil, no início dos anos 1990, o resultado foi outro. Lançada em 1993, a 7 Up desembarcou com investimento alto em marketing e uma promessa clara de ser uma opção mais suave, com menos gás e um perfil quase “saudável” para os padrões da época. Houve patrocínios de peso, como a equipe Jordan na Fórmula 1 e o Botafogo no futebol, tentando rapidamente ganhar reconhecimento.
No entanto, o sabor da bebida não agradou o paladar do brasileiro. Com isso, diante da baixa demanda, a marca perdeu espaço nas prateleiras e foi descontinuada em 1997, encerrando uma passagem curta e pouco lembrada fora dos círculos mais nostálgicos.
Curiosamente, a ideia que não funcionou nos anos 90 voltaria repaginada depois. Muitos veem na H2OH!, também da PepsiCo, uma espécie de sucessora indireta do conceito da 7 Up no Brasil. Uma bebida menos doce, menos gaseificada e posicionada como alternativa aos refrigerantes tradicionais, mas agora ajustada a um consumidor mais aberto à ideia de leveza.
Hoje, a 7 Up não é produzida no país e aparece apenas via importação, em latas ou garrafas trazidas principalmente dos Estados Unidos. É encontrada em lojas especializadas e empórios. Para alguns, é só um refrigerante comum. Para outros, é um lembrete de que nem toda marca consegue traduzir seu sucesso para todos os mercados.

👟 O estranho caso da Skechers

Em 1992, Robert Greenberg parecia fora do jogo. Aos 52 anos, havia deixado a presidência da LA Gear, marca que ele próprio criou, após ver o sucesso virar colapso na bolsa. Especialista em moda acessível, tudo indicava que sua trajetória tinha chegado ao limite. Mas foi justamente dessa posição que surgiu a Skechers, um dos maiores paradoxos do varejo moderno.
A empresa começou revendendo botas Dr. Martens para skatistas na Califórnia. Greenberg e seu filho Michael perceberam uma lacuna clara: enquanto Nike e Adidas disputavam performance e atletas, havia um público enorme em busca de conforto e estilo casual. A Skechers cresceu ocupando esse espaço, com produtos como o tênis Energy, robusto e controverso, que virou febre entre adolescentes nos anos 90.
No fim da década, a marca já faturava centenas de milhões. Em 1999, abriu capital em Nova York e iniciou uma expansão global discreta. Em vez de investir em campanhas grandiosas, apostou em preços competitivos, conforto e distribuição agressiva, estando presente em farmácias, aeroportos e lojas de departamento. Sem glamour, mas com escala.
A Skechers prosperou justamente por não se encaixar em rótulos. Não compete em Olimpíadas nem dita tendências, mas vende para quem quer apenas um tênis confortável, sem identidade de tribo. Essa neutralidade permitiu atingir públicos amplos e construir volume.
Em 2024, a estratégia se provou vencedora: US$ 8,97 bilhões em receita e US$ 639,5 milhões de lucro, tornando a Skechers uma das maiores marcas de calçados do mundo.
Em maio de 2025, veio a virada. A Skechers foi adquirida pela 3G Capital por US$ 9,4 bilhões. A venda não refletiu fraqueza, mas pragmatismo diante de desafios como tarifas, concorrência asiática e investimentos em digitalização. Para Greenberg, sair no topo pareceu a decisão mais segura.
Antes vista como cafona, a marca virou referência em um mundo que prioriza conforto e bem-estar. Se Nike é performance e Adidas é estilo, a Skechers ocupa o espaço de quem não quer escolher.
Sob o comando da 3G, mudanças devem vir. O desafio será preservar a identidade construída ao longo de três décadas. A Skechers nunca prometeu correr mais rápido ou parecer melhor. Sempre foi sobre andar confortável. E talvez isso diga mais sobre o futuro do consumo do que parece.
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📈 A Nasdaq voltou ao radar das empresas brasileiras

Depois de um longo período de silêncio, a campainha da Nasdaq voltou a tocar para uma empresa brasileira. Quase cinco anos após o IPO do Nubank, o banco digital PicPay, finalmente fez sua estreia na bolsa americana após anos flertando com esse movimento.
A oferta levantou cerca de US$ 434 milhões e colocou a empresa para negociar sob o código PICS, com um valuation que superou os US$ 2,5 bilhões na estreia.
Contudo, a trajetória até esse momento não foi exatamente linear. O PicPay já havia considerado uma abertura de capital no passado, mas preferiu esperar até apresentar uma combinação mais clara de crescimento e geração de lucro.
Com a empresa entrando em um estágio mais maduro, o mercado passou a enxergar o modelo de negócios com menos ceticismo. A precificação no topo da faixa indicativa mostrou que havia apetite, algo incomum em estreias recentes e que reforça a leitura de um mercado mais receptivo.
O movimento do PicPay não parece isolado. No mesmo dia, o Agibank anunciou que protocolou seu pedido de IPO nos Estados Unidos. Com foco em crédito consignado, serviços financeiros híbridos e uma base forte fora dos grandes centros, o banco do gaúcho Marciano Testa pode levantar entre US$ 650 milhões e US$ 900 milhões na operação.
A listagem, se confirmada, reforça a percepção de que empresas brasileiras voltaram a enxergar as bolsas americanas como um caminho viável para financiar crescimento e ganhar visibilidade.
Há um pano de fundo mais amplo nessa história. Após anos de juros elevados e pouca tolerância a risco, o mercado internacional começa a reabrir espaço para empresas de tecnologia e serviços financeiros, especialmente aquelas que já passaram da fase de promessa e conseguem mostrar escala e rentabilidade.
Se isso representa de fato uma nova onda de IPOs ainda é cedo para afirmar. Mas o fato de o PicPay ter conseguido abrir a porteira e o Agibank já estar na fila sugere que o ciclo pode estar mudando. Em vez de exceções pontuais, talvez estejamos vendo o início de um período em que empresas brasileiras voltam a olhar para Nasdaq como o caminho natural para seus próximos capítulos.

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