A guerra de sucessão mais suja da história da mídia americana

Sumner Redstone construiu um dos maiores impérios de mídia da história americana com a Viacom, CBS e Paramount. Contudo, nunca planejou a sua sucessão.

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A guerra de sucessão mais suja da história da mídia americana

“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger

🎬 A guerra de sucessão mais suja da história da mídia americana

Morre Sumner Redstone, dono da Paramount, aos 97 anos - Jornal O Globo
Sumner Redstone, empresário norte-americano.

Sumner Redstone nasceu em 1923 em Boston, em um cortiço de imigrantes judeus. Ao falecer, em 2020, aos 97 anos, deixou um império de mídia avaliado em bilhões de dólares e uma das disputas de herança mais sujas que Hollywood já viu. Tão suja que o caso da Paramount inspirou a série ‘Succession’ da HBO. Pode sentar, porque aí vem história.

Depois dos estudos em Harvard, Sumner entrou nos negócios do pai, Michael Redston, e ajudou a expandir uma cadeia regional de cinemas chamada National Amusements. Foi o primeiro a usar o termo “multiplex” ao abrir os primeiros cinemas com várias salas.

A National Amusements foi crescendo e chegou a administrar 69 cinemas em 667 salas nos Estados Unidos, Reino Unido e América Latina. No Brasil, detinha o controle da UCI Cinemas. Além da operação, a empresa também deteve participação relevante na Paramount Global.

Já com uma operação robusta, na década de 1980 Redstone identificou antes da maioria que conteúdo seria o ativo mais valioso da era seguinte. Em 1987, comprou a Viacom por US$ 3,4 bilhões em uma aquisição alavancada, usando a National Amusements como garantia.

Dentro da Viacom estavam MTV, Nickelodeon, BET e Showtime. Em 1994, após uma guerra de seis anos, venceu Barry Diller na disputa pela Paramount Pictures, pagando US$ 10 bilhões. Em 1999, fechou uma fusão com a CBS, uma das principais redes de televisão e rádio dos Estados Unidos, por US$ 37 bilhões. Em 2006, separou as duas empresas por achar que as ações estavam subavaliadas em conjunto.

Participações do grupo National Amusements.

Contudo, seus problemas de gestão começaram logo em seguida. Em 2009, durante uma entrevista, disse com total seriedade: “Não tenho nenhuma intenção de me aposentar, nem de morrer.”

I have no intention of ever retiring, or of dying.

A frase não era uma piada. Era uma declaração de princípios de um homem que, em 1979, havia sobrevivido pendurado em uma janela do terceiro andar do Copley Plaza Hotel em Boston enquanto o prédio pegava fogo, com queimaduras em quase metade do corpo.

Redstone contava essa história sempre, como ilustração de uma tese que guiou sua vida. No entanto, o que funcionou como filosofia de negócios se tornou uma tragédia de governança.

E é aí que entram os seus dois filhos. Shari, a filha, havia trabalhado na empresa por décadas e gradualmente construído influência dentro da National Amusements, a holding familiar que controlava Viacom e CBS.

Shari Redstone, uma das filhas de Sumner.

Brent, o filho, havia tentado trabalhar na empresa, fracassado e se afastado completamente. As relações com ambos eram turbulentas, mas as relações com Shari eram uma montanha-russa particular. Tanto que em um momento ela era a sucessora natural, no momento seguinte ele a atacava publicamente.

Em 2007, a tensão explodiu quando Shari votou contra uma doação de US$ 105 milhões que o pai queria fazer a sistemas hospitalares na Califórnia e Massachusetts. Sumner reagiu escrevendo uma carta aos acionistas da National Amusements Trust dizendo que sua filha “não tem o julgamento e as capacidades necessárias para servir como chairman das três empresas.”

Em uma carta enviada à Forbes meses depois, afirmou que Shari e Brent haviam feito “pouca ou nenhuma contribuição” para construir o império. Era um pai humilhando publicamente a filha nos mesmos veículos que cobriam suas empresas. Brent processou o pai por mais de um bilhão de dólares e parou de falar com ele.

Enquanto a relação com os filhos ia de mal a pior, Redstone havia encontrado dois executivos em quem depositava total confiança. Philippe Dauman, advogado e ex-CEO da Viacom, era tão próximo que o patriarca o chamava de “outro filho.” Les Moonves, lendário CEO da CBS, era o outro executivo ao qual Redstone tinha grande admiração.

Mas, foi a partir da sua deterioração física, publicamente aparente por volta de 2014, que se iniciou um dos episódios mais perturbadores de toda essa história maluca.

Na mansão de Redstone em Los Angeles, duas mulheres haviam assumido funções de cuidadoras e conselheiras. Sydney Holland e Manuela Herzer começaram como namoradas do magnata, então com mais de 90 anos, e foram gradativamente ocupando uma posição de controle sobre seu cotidiano.

Manuela Herzer Cites Sumner Redstone Video In Renewed Fight Over His Mental  Capacity
Redstone e Manuela Herzer.

Segundo documentos judiciais, as duas convenceram Redstone a lhes assinar cheques de US$ 45 milhões cada. Herzer foi nomeada agente de saúde do empresário, posição que lhe daria autoridade legal sobre decisões médicas. As duas haviam conseguido afastar Redstone da família, incluindo a própria Shari.

Em outubro de 2015, Herzer foi removida abruptamente do cargo de agente de saúde. Ela respondeu entrando na Justiça, alegando que Redstone não estava em condições mentais de tomar a decisão.

O processo foi apoiado pelos dois executivos favoritos do patriarca, Dauman e Moonves, que tinham interesse direto em manter a situação como estava. Em um julgamento que expôs cada detalhe da vida privada de um dos homens mais poderosos da mídia americana, a juíza rejeitou o caso de Herzer três dias após o início do julgamento. No acerto final, Herzer pagou US$ 3,25 milhões de volta a Redstone.

Com as ex-namoradas afastadas, Shari Redstone iniciou uma nova fase da batalha, desta vez pelo controle corporativo.

A Viacom acumulava quedas de receita desde 2014 sob o comando de Dauman, com as ações em queda livre. Em agosto de 2016, após uma sequência de manobras pela National Amusements, Dauman foi forçado a renunciar à presidência e ao cargo de CEO.

Viacom CEO Philippe Dauman trumpets the firm's adaptability amid  'awfulizing' - Los Angeles Times
Philippe Dauman, ex-CEO da Viacom.

O homem que Sumner havia chamado de “outro filho” saiu pela porta dos fundos, com um acordo de saída que incluiu uma indenização de US$ 72 milhões. Em documentos arquivados na SEC (como se fosse a CVM), todas as disputas entre a família Redstone, a National Amusements e a Viacom foram formalmente encerradas.

A batalha com Moonves foi mais longa. O CEO da CBS resistia sistematicamente à reunificação de CBS e Viacom que Shari defendia. Em 2018, investigações jornalísticas trouxeram à tona acusações de assédio contra Moonves envolvendo múltiplas mulheres ao longo de décadas. O executivo foi afastado em setembro de 2018.

A CBS pagou US$ 120 milhões em investigações e acordos relacionados ao caso. Com Moonves fora do caminho, em dezembro de 2019 a fusão entre Viacom e CBS finalmente ocorreu, criando a ViacomCBS, rebatizada posteriormente como Paramount Global.

Em dezembro de 2018, um tribunal de Los Angeles declarou Sumner Redstone legalmente incapacitado e nomeou um guardião para proteger seus interesses. O homem que havia dito que nunca morreria estava em uma cadeira de rodas, incapaz de articular uma frase, enquanto sua família e seus executivos travavam batalhas ao redor dele.

Sumner Redstone morreu em 12 de agosto de 2020, aos 97 anos. Deixou um filho que parou de falar com ele e o processou por mais de um bilhão de dólares, uma ex-namorada que recebeu US$ 45 milhões e depois pagou US$ 3,25 milhões de volta, um CEO de confiança expulso com US$ 72 milhões na mão, e um legado corporativo que a filha que ele havia humilhado publicamente precisou reconstruir do zero.

A história de Sumner Redstone deixa lições que vão além do drama familiar. A primeira é que acumular poder sem planejar a sucessão não é força, é negligência. A segunda é que executivos leais ao fundador raramente são leais à empresa, e a diferença aparece exatamente quando o fundador não consegue mais protegê-los.

A terceira é sobre o custo de nunca planejar a sucessão. Redstone passou décadas construindo um império e os últimos anos sendo disputado como um ativo, por namoradas, por filhos e por advogados.

Em agosto de 2025, um grupo de investidores comandado pela Skydance Media finalizou a compra da National Amusements, unindo-a à Paramount Global. A transação marcou o fim de um longo período de décadas em que a família Redstone comandava o grupo, dando origem a uma gigante multibilionária do setor de mídia, cujas ações passaram a ser negociadas na Nasdaq com o código PSKY.


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