A guerra de € 40 bilhões no império da Ray-Ban

Leonardo Del Vecchio criou uma estrutura para impedir que seus herdeiros brigassem pelo controle. Quatro anos após sua morte, ela virou o centro da disputa.

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A guerra de € 40 bilhões no império da Ray-Ban

“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger

😎 A guerra de € 40 bilhões no império da Ray-Ban

Leonardo Del Vecchio passou os últimos anos de vida tentando resolver um problema complexo e recorrente no mundo corporativo: a sucessão.

Apesar de toda a fortuna que construiu, essa é uma questão que dinheiro nenhum consegue comprar a solução. E havia um problema ainda maior pela frente: como evitar que oito herdeiros acabassem destruindo um império construído ao longo de décadas?

Leonardo Del Vecchio, dono da Ray-Ban, morre aos 87 anos
Leonardo Del Vecchio, empresário italiano.

Del Vecchio nasceu em um orfanato em Milão em 1935, foi aprendiz de ferramenteiro aos 15 anos e fundou a Luxottica em 1961 em um galpão nas montanhas do Vêneto. Quando morreu em junho de 2022, havia criado a maior empresa de óculos do mundo, dona da Ray-Ban, Oakley, Persol, LensCrafters e Sunglass Hut, com receitas de mais de € 20 bilhões por ano.

Para evitar a guerra entre os filhos, desenhou uma estrutura que ele mesmo chamava de “cofre”. Quatro anos depois da sua morte, ocorrida em 2022, o cofre está sendo arrombado.

A solução que Del Vecchio construiu era elegante na teoria. Criou a Delfin Sarl, uma holding sediada em Luxemburgo, e dividiu o controle em oito partes iguais, uma para cada herdeiro, cada uma valendo 12,5% do capital.

Para que qualquer decisão importante passasse, era necessário o aval de mais de 88% do capital. A aritmética era o ponto central da engenharia: com oito partes iguais, um único herdeiro dissidente poderia bloquear qualquer movimento, e uma decisão unânime era quase impossível de forçar. A ideia era que a família teria que conversar sempre, nunca podendo agir de forma unilateral. O que Del Vecchio não previu é que o instrumento desenhado para impedir a guerra se tornaria o campo de batalha.

Assim, a paralisação durou quatro anos. A Delfin distribuiu menos de um décimo dos dividendos previstos em seu próprio estatuto, mesmo com resultados sólidos. Em 2024, a holding reportou lucro líquido de € 1,393 bilhão, mais que o dobro do ano anterior, com receita de dividendos de € 1,144 bilhão, ou seja, o dinheiro estava ali, mas a família simplesmente não conseguia concordar em nada.

Foi nesse vácuo que Leonardo Maria Del Vecchio, o filho de 31 anos que o fundador teve com sua terceira esposa, decidiu agir. Conhecido na imprensa italiana como Leonardino, ele era presidente da Ray-Ban e diretor de estratégia da EssilorLuxottica quando, em 2025, propôs comprar as participações de dois irmãos, Luca e Paola, por cerca de € 10 bilhões.

Luxembourg-based holding company: Son of Luxottica founder quits after  succession row - RTL Today
Leonardo Maria Del Vecchio, filho de Leonardo Del Vecchio.

Se a operação desse certo, saltaria de 12,5% para 37,5% do capital, e se tornaria o maior acionista individual da Delfin e, na prática, o novo chefe da família. Para financiar a compra, montou um pacote de dívida com UniCredit, BNP Paribas e Crédit Agricole, um dos maiores empréstimos já tomados por um indivíduo na Europa. Como garantia da operação, o colateral seriam as próprias ações que queria comprar.

A assembleia de 27 de abril de 2026 aprovou a transferência, com seis dos oito herdeiros votando a favor. Dois não votaram: o filho mais velho, Claudio, e Rocco Basilico, enteado de Del Vecchio, filho da terceira esposa com outro homem, mas tratado como herdeiro igual pelo fundador (casos de família por aqui).

Rocco foi a Luxemburgo e entrou com ação judicial, argumentando que a transferência exigia o quórum de 88%, não os 75% tratados como suficientes pela assembleia. Se ele tivesse razão, seu voto sozinho teria sido suficiente para bloquear tudo. Quando os bancos perceberam que um tribunal poderia anular o voto que autorizava o penhor das ações, o financiamento da operação inteira ficou em risco.

Em junho de 2026, Leonardo Maria e Rocco anunciaram uma trégua e retiraram os processos judiciais. Mas o acordo durou menos de três semanas.

Na sequência, a briga se deslocou do tribunal para a imprensa, e o alvo mudou. Desta vez, o adversário não era mais um irmão, mas Francesco Milleri, o CEO da EssilorLuxottica que Del Vecchio havia escolhido pessoalmente para comandar o negócio, e que também presidia o conselho da própria Delfin.

Leonardo Maria começou a atacar Milleri publicamente, criticando a queda das ações da empresa e questionando se ele seria reconduzido ao cargo. A ação da EssilorLuxottica havia caído mais de 50% desde novembro de 2025, devolvendo todo o ganho acumulado desde a morte do fundador.

Gráfico com as ações da empresa nos últimos anos.

A resposta de Milleri não veio de Milleri. Veio de vinte dos seus principais executivos, que assinaram um memorando coletivo aos funcionários da empresa defendendo o CEO e atribuindo a queda das ações ao ambiente macroeconômico e geopolítico, não à gestão. Era um gesto incomum em um mundo corporativo onde raras vezes a liderança operacional entra publicamente em uma briga de acionistas.

Mas o que está em jogo vai bem além da família. A Delfin é a maior acionista do Banco Monte dei Paschi di Siena, com 17,5% do capital, e detém cerca de 10% da Generali, uma das maiores seguradoras da Europa, e quase 3% do UniCredit, o maior banco do país. São posições no centro da consolidação que está redesenhando o sistema financeiro italiano.

Quem controla a Delfin influencia o resultado de fusões e disputas no setor bancário de um dos maiores países da Europa. Por isso a Itália corporativa acompanha o caso com atenção que vai muito além do interesse por óculos de sol.

Marcas do grupo EssilorLuxottica.

O problema que Leonardo Del Vecchio não conseguiu resolver é o mesmo que aflige toda família que constrói um patrimônio grande demais para ser gerido por um consenso permanente.

O instrumento de 88% criado para forçar o diálogo criou o empate que paralisa tudo. E agora, com as ações da empresa a menos da metade do valor que tinham quando o fundador morreu, o legado que ele tentou blindar está sendo corroído enquanto os herdeiros brigam.

Mas essa história ainda não acabou. A disputa interna da família Del Vecchio ainda vai render alguns ensinamentos para o mundo corporativo.


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