A bolha de IA em números: quanto poderia desaparecer?
A IA vai mudar o mundo, mas isso não significa que as ações estão baratas. Confira as perspectivas de Ray Dalio e de outros economistas sobre uma bolha em potencial.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
🤖 A bolha de IA em números: quanto poderia desaparecer?

No mês de maio desse ano, duas empresas de chips de memória, a Micron e a SK Hynix, foram responsáveis por 17% de todo o retorno do mercado acionário global no mês.
Não foi 17% do setor de tecnologia, tampouco 17% da bolsa americana. Foi 17% de tudo, de cada empresa listada em cada país do mundo somada. Duas empresas que representam cerca de 1% do índice MSCI All Country World Index, que reúne milhares de ações em dezenas de países, carregaram o planeta inteiro nas costas por um mês.
Com isso, surge um alerta: se dois papéis conseguem puxar tudo para cima, o que acontece com o seu portfólio na queda?
Esse é o ponto central do debate que está tomando conta dos mercados desde o ano passado. Não se a inteligência artificial é uma tecnologia real, porque ela é. A questão é outra e o problema começa pela concentração.
Há alguns anos, o grande debate era sobre as Magnificent Seven, as sete gigantes de tecnologia que haviam crescido tanto que o S&P 500, o índice que o mundo usa como termômetro da economia americana, era na prática sete ações com traje de índice.

Agora, observamos que a inteligência artificial não ficou restrita às big techs. Ela se infiltrou em utilidades elétricas, porque os data centers consomem enormes quantidades de energia. Em imóveis, porque alguém precisa ser dono dos galpões cheios de servidores. Em construção, porque os data centers precisam ser erguidos. Em logística, porque os equipamentos precisam ser entregues. Enfim, o negócio está por todo lado.
Do outro lado da cadeia, o dinheiro gerado pelo boom já está transbordando para a “economia real”. Quando a SpaceX abriu capital, cerca de 4.400 funcionários viraram milionários da noite para o dia, com 400 deles passando a ter mais de US$ 100 milhões cada.
Agentes imobiliários na Califórnia e no Texas relataram uma onda de consultas sobre imóveis. Empresas de jatos particulares registraram aumento na demanda. O dinheiro do boom não fica com os trabalhadores de tecnologia, mas se dispersa por toda a economia.
No entanto, tudo isso acende um alerta digamos que, um tanto urgente. O economista Dean Baker, que mantém um site chamado AI Bubble Monitor, faz a seguinte aritmética: o mercado acionário americano vale cerca de US$ 80 trilhões, se os índices preço-lucro simplesmente voltassem à média histórica, sem nenhum crash dramático, apenas uma normalização, isso reduziria cerca de US$ 40 trilhões.

Gita Gopinath, ex-economista-chefe do FMI, estima que uma correção no estilo da bolha das pontocom destruiria cerca de US$ 20 trilhões em riqueza americana, mais US$ 15 trilhões em ativos de investidores estrangeiros, em matéria no The Guardian.
Para comparação, quando a bolha das pontocom estourou de verdade, em 2000, foram destruídos cerca de US$ 6 trilhões em valor. As estimativas para o cenário atual variam entre cinco e seis vezes esse número.
O argumento de que isso é apenas riqueza em papel e não afeta a vida real funcionou por décadas, quando a principal reserva de valor das famílias americanas era o imóvel.
Em 2025, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, as ações superaram o imóvel como o maior componente da riqueza familiar americana. O mercado financeiro americano conseguiu atrair grande parte da poupança da classe média.
E convenhamos que, quando as pessoas veem o saldo da corretora cair, gastam menos. Aquele projeto de cozinha nova planejada? Fica de lado. A concessionária de veículos? Sim, vende menos também. O efeito cascateia para a economia real.
Segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS), o banco central dos bancos centrais, o atual ciclo de investimento em IA já cresceu mais rápido do que a mania ferroviária (bolha financeira especulativa ocorrida no Reino Unido durante a década de 1840), mais rápido do que o boom da eletrificação dos anos 1920 e mais rápido do que a própria bolha das pontocom. É a linha mais íngreme do gráfico. E os ciclos anteriores costumavam quebrar por volta do quinto ano. Estamos no terceiro.
Nada disso é uma previsão de crash. Afinal, o editor aqui não ficou maluco do nada. Ninguém sabe quando ou se isso vai acontecer, e qualquer pessoa que afirme o contrário está chutando. A inteligência artificial pode muito bem entregar tudo o que promete e mais.
No mês passado, Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates e um dos investidores mais respeitados do mundo, foi direto quando perguntado se enxerga sinais de bolha no mercado atual: “Sim. Sim. Sim. Sinais clássicos de que estamos em uma.” Dalio comparou o momento presente a 1929 e ao estouro das pontocom em 2000, e fez uma distinção que resume bem o risco: riqueza não é dinheiro.

Uma empresa pode levantar US$ 50 milhões, ser avaliada em US$ 1 bilhão e criar um bilionário de papel sem que um único dólar real mude de mãos. Quando o mercado vira e todos precisam de caixa ao mesmo tempo, o preço pode desabar de US$ 100 para US$ 25 enquanto o empréstimo tomado contra aquela riqueza de papel ainda precisa ser pago integralmente.
Segundo Dalio, o estouro de uma bolha de IA não seria apenas um evento financeiro, mas a faísca para o tipo de conflito político e geopolítico que historicamente acompanha o fim de um ciclo longo. O maior risco, na sua visão, não é a perda no portfólio.
Mas o ponto de chegada de qualquer análise honesta sobre o momento atual é o mesmo de sempre: diversificação real não é ter cinquenta ações de tecnologia que sobem juntas. Diversificação setorial e entre países é a premissa base para um portfólio de ações bem estruturado.
Quando se olha para a história financeira, o trade mais empolgante de cada era costuma ser exatamente o que arruína quem entrou nele. No fim, essa foi a maior lição dessa edição. E falando em diversificação, assista ao vídeo da semana ao final da edição sobre John Bogle, considerado o “pai dos ETF’s”.
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